quinta-feira, 17 de maio de 2007

Releituras I

Numa tentativa desesperada de incentivar a leitura entre as crianças e jovens, e após alguma negociação com os portadores dos direitos autorais, o governo brasileiro está relançando alguns clássicos da literatura infanto-juvenil com novas versões, carregadas de aventura, emoção e alguma violência e sexo, por que não? Vamos a elas:

A Branca de Levis

Era uma vez uma menina que morava em uma grande cidade com sua madrasta e suas duas filhas (da madastra, quer dizer, eram irmãs da Branca, mas de criação). Essa moça era chamada Branca pois tinha a pele muito alva (alva quer dizer branca (o governo está ciente do pouco vocabulário de nossas crianças, jovens e seus pais)) uma vez que nunca podia tomar sol, uma vez que era obrigada a trabalhar como doméstica para sua madrasta que economizava a grana da diarista, já veremos para onde ia esse dinheiro.

Branca cresceu com um belo corpo e um belo rosto, apenas suas mãos eram um tanto quanto surradas, já que vivia lavando, esfregando, torcendo, escovando, sem luvas, é claro, para a madrasta e suas duas filhas. Ela não tinha celulite nem essas coisas porque se alimentava à base de maçãs e água e nunca podia tomar uma Coca geladinha, veja só.

A madrasta que era uma sessentona, era chegada num garotão e já havia feito três plásticas, duas lipoaspirações, aplicado Botox e tinha conta em vários salões de beleza dessa cidade grande em que morava (aí é que ia o dinheiro da diarista). Além disso, gostava de se vestir como menina e vivia falando que a idade está na cabeça (assim como várias celebridades nacionais que não vamos citar para não ter que pagar indenização posterior ou possívies royalties).

A madrasta tinha vários amantes e começou a ficar preocupada quando alguns desses começaram a olhar, com certo interesse para a pobre Branca, que estava sempre por ali, lavando, esfregando, torcendo e escovando. Ela não se preocupava muito que o mesmo acontecesse com suas filhas pois estas estavam sempre no shopping, fazendo compras e comendo em fast-foods da moda e muito irados.

Um dia ela resolveu dar um basta nessa situação e pediu ao porteiro do prédio, já que não confiava muito nos seus amantes garotões, para levar Branca para outra cidade, para passar uns tempos. Azar, ela podia pagar uma diarista por alguns tempos. A madrasta escolheu uma cidade bem ensolarada, imaginando que a Branca, não acostumada em pegar sol, iria ter sua linda e alva pele arruinada pelos raios UVA e UVB.

O porteiro, que também era homem e tinha suas necessidades, setenciou a Branca, durante a sua viagem e perto de um descampado, a seguinte sentença: "Ou dá ou desce". Ao que Branca, uma moça simples e pura, que nem assistir a novela das oito podia, não entendeu a pergunta e resolveu descer, por via das dúvidas. O porteiro, que também era homem e tinha suas necessidades, mas que não era nenhum tarado, deu de ombros, fez o retorno após Branca descer e, segundo fontes não oficias, se dirigiu a "Boite e Whyskeria Girls Night Club".

Branca estava sozinha no descampado sem saber o que fazer quando, em sua frente, surgiram quatro monstrinhos maneiros que se apresentaram como sendo os bichinhos-japoneses-mons, um novo lançamento de um programa infantil e matinal que prometia fazer muito sucesso entre a criançada e, inclusive, já possuíam, prontos para serem lançados, uma série de produtos como cadernos, mochilas, brinquedos variados, figurinhas e tudo que puderes imaginar, confira nas lojas, pilhas vendidas separadamente.

Os bichinhos-japoneses-mons, que eram muito bonzinhos, resolveram ajudar Branca e a levaram para o shopping mais próximo, após concluírem que ninguém poderia fazer sucesso se não estivesse usando roupas de grifes famosas e descoladas. Em troca, só pediram que ela os treinasse para que os mesmos estivessem prontos a enfrentar vários torneios consecutivos em suas aventuras televisivas, sempre com alguma lição de moral após cada episódio.

Eles escolheram uma calça jeans muito justa para Branca, cintura baixa e feita com material elástico, que moldava melhor o corpo, pagaram com seu cartão de crédito internacional, faça já o seu, e a partir daí a menina passou a ser conhecida como a Branca de Levis.

Acontece que nesse mesmo shopping estava um famoso jogador de futebol, conhecido como o Príncipe Encantado da Grande Área, que imediatamente se apaixonou pela Branca, agora de Levis. Ele convidou a moça para ir num show de pagode no final de semana e eles acabaram se casando em algum castelo medieval da Europa, numa festa para duzentos convidados em que a imprensa foi proibida de entrar, embora eles tenham divulgado as fotos cinco minutos depois do sim.

A madrasta, muito invejosa, resolveu enviar para a Branca, sempre trajando seus jeans Levis, uma maçã envenenada, já que a Branca, ainda usando suas calças Levis, as apreciava muito. Acontece que, ironia do destino, quem comeu a maçã foi o Príncipe Encantado da Grande Área, conhecido também pela alcunha de fominha entre seus semelhantes. Ele morreu, foi enterrado com as bandeiras dos cinquenta e oito times em que jogou e que eram do seu coração e deixou uma boa pensão para Branca (não se esqueça, de Levis) que agora coleciona garotões e viveu feliz para sempre, aparecendo em vários escândalos em revistas sensacionalistas e de fofocas.

FIM

Um comentário:

dffarias disse...

Hehehehe! Tri engraçado!Ou seria Triengraçado? Ou Tri-engraçado? Nunca sei como se escreve. Aplica-se a regra do BIsavô... BIcampeão...???

Mas voltando a releitura, estás te tornando o Mestre dos Parágrafos. Muito bom mesmo.