sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Engraçado

Não deixo de achar engraçado o que algumas pessoas acham engraçado. Eu gosto de escutar música no carro, mas o rádio do meu carro é somente rádio, tem um toca-fitas também, veja você, mas eu acho que não existem mais fitas para tocar, é uma contradição, mas não é disso que vou falar hoje. Quero falar do que as pessoas acham engraçado e o fato de escutar rádio no carro (já que não posso escutar fitas cassetes) tem a ver com isso, pronto. Então tá, entrei no carro e liguei o rádio, era um intervalo/quadro cômico que estava passando, ou ao menos tinha essa intenção. Um sujeito ligava para alguém para passar uma espécie de trote. Esse sujeito que ligava havia recebido informações por parte de um amigo e/ou parente da pobre vítima. As informações eram acerca de um apelido indesejado. E então o sujeito engraçadíssimo fica ligando para o pobre coitado e repetindo o apelido sem parar, até enlouquecer o infeliz. Engraçadíssimo! Não, não acho muito.

Eu não gostaria de receber um trote, eu não passo trote então. Parece um raciocínio lógico, acontece que não é. Não é a tal ponto de supostos amigos ou parentes fornecerem o telefone e o apelido humilhante ou desagradável de uma pessoa para outra que irá humilhá-la ou denegri-la em público e para (dependendo da audiência) todo o país ouvir e, claro, rir muito. Todo mundo menos eu que vou trocar de estação. Eu não faria isso com meus amigos, entendo que muitos mais também não.

Mas isso tudo me preocupa e muito, o que as pessoas acham engraçado. O falecido Éneas Carneiro deve ter tido muitos votos porque as pessoas gostavam de suas idéias, mas eu não tenho nenhuma dúvida que recebeu inúmeros mais porque as pessoas o achavam engraçado, o jeito de falar (sempre irado e ou apaixonado), a rapidez que os poucos segundos exigiam, a barba comprida, a careca, os óculos, a imagem caricata. As pessoas achavam engraçado, seria divertido chegar no bar no outro dia, ou no emprego e dizer: _ Eu votei no Éneas! Os colegas então sacudiriam a cabeça e diriam: _ Esse Fulano é mesmo uma figura, muito engraçado! E contariam para as suas esposas, mais tarde. Engraçado.

É por isso que tenho muito medo do senso de humor, vai que vire uma coisa engraçada, sei lá, dirigir na contramão e de olhos fechados, ou subir na calçada e atropelar pedestres. Isso é um pequeno passo, de irritar, importunar e humilhar até espancar, mutilar e matar. Bom, talvez não seja um passo tão pequeno, mas pode ser apenas questão de tempo. Parece que já é engraçado ligar para a Polícia ou Bombeiros e mentir a respeito de tragédias e emergências. Se pensarmos que os órgão de defesa civil podem se dirigir a falsos locais de tragédia ao invés de atender a verdadeiras chamadas, o raciocínio ali de cima não parece ser tão absurdo ou exagerado. Esses dias eu soube que agora há uma lei para punir as pessoas que fazem esse tipo de coisa aqui no país. Quer dizer, foi preciso alguém ameaçar punir o "engraçadinho" para que, talvez, ele vá procurar risadas em outro lugar. Tudo muito engraçado.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Vitórias e Rojões

Sou fan de futebol e acompanho as notícias relacionadas a ele. Não posso deixar de notar e também apoiar o repúdio da imprensa a fatos como invasão de campo e arremessos de objetos em direção ao gramado por parte de "torcedores" (aqui entre aspas porque há gente que entende que não são torcedores, mas marginais, bandidos ou assemelhados infiltrados e encobertos pela multidão, concordo com isso, porém em parte (mais tarde ficará mais claro)). Não consigo, entretanto, deixar de relacionar esse tipo de atitude com outros fatos que vêm de dentro da casamata (ou até do escritório do Presidente (do clube, por favor)) para fora, em direção à arquibancada.

O que estou querendo comentar aqui, a relação que desejo fazer, é essa mania nacional (talvez continental) da vitória à qualquer custo e, pior ainda, de qualquer maneira com os atos de disparo dos famigerados rojões, bombas e foguetes. Com à exceção de pouquíssimos esportes, a tônica geral é da trapaça e da anti-desportividade. Não é raro vermos dirigentes sabotando vestiários de equipes adversárias ou apoiando (senão patrocinando) eventos como estouro de foguetes sobre concentrações "inimigas", bem como jogadores tentando enganar o juiz (o eterno culpado). Há pouco tempo atrás vimos um técnico de futebol usar de artimanhas nada admiráveis, avisando aos jogadores de um time que este não tinha mais chance de classificação para tal competição, numa tentativa de desmotivar essa equipe (ao invés de tentar motivar a sua). Cito esses fatos, mas tenho certeza de que mais do que isso acontece, o que importa mais é a vitória, o que importa menos é como ela aconteceu.

Eu mesmo adoro quando meu time ganha um campeonato ou um jogo. Ficaria mais feliz, entretanto, se no dia após a decisão eu pudesse dizer: "Meu time foi campeão e o time adversário pôde dormir tranquilo na véspera, pôde treinar sossegado antes da partida e teve toda a assistência necessária como time visitante". Isso iria me deixar mais orgulhoso da vitória do meu time. Fazer o contrário seria admitir que minha equipe é inferior e que, apenas através de trapaça eu pude igualar uma situação desigual. Eu não posso pôr tanta culpa no torcedor que joga a pilha ou o rádio em direção ao adversário se o dirigente ou o técnico (ou ambos) são coniventes com o jogador trapaceiro que é "malandro" quando joga no seu time, mas condenável quando está no adversário.

Não sei, talvez a busca da vitória à qualquer custo seja uma forma extrema de competitividade, canalizada de forma errônea (existe gente que não admite perder). Há quem vá dizer que isso faz parte do "folclore do futebol" ou coisa que o valha quando for ele o favorecido, mas irá reclamar quando for o contrário. O torcedor, mesmo o não marginal, deve ser observado dentro de um contexto, se a moral vigente o ensina que a vitória desleal ou ilegal ainda é uma vitória não se pode esperar que o mesmo entenda o contrário, a moral vigente é que deve ser mudada. Não se pode bater palmas para o desonesto para, a seguir, exigir honestidade, no futebol e na vida.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Auto Ajuda

Passei esses dias na frente de um livraria. Na vitrina vários livros. A maioria tratava do mesmo assunto: como vencer, ganhar uma grana e ser feliz. Os populares livros de auto-ajuda. O primeiro pensamento que tive foi: a livraria expõe os livros que são mais procurados ou fazem mais sucesso, de forma que o leitor/consumidor que passa em frente à loja já sabe de antemão que o comércio em questão tem o produto que ele procura. Esse pensamento, admito, foi perturbador: os livros que mais vendem no Brasil são os livros esses. O segundo pensamento que tive, esse mais tardio, foi que o título (auto ajuda) é perfeito, o autor está lá, na pior, sem muito dinheiro, as contas se acumulam, sua esposa não o respeita mais, então o autor decide: vou me ajudar, vou me auto ajudar, vou escrever aí um livro e ganhar um dinheirinho bom e assim voltarei a ser feliz. Totalmente auto ajuda! Perfeito!

Há alguns meses atrás houve uma feira do livro por aqui, é uma coisa comum em várias cidades do país e é claro que existem sempre títulos interessantes à mostra e, os meus preferidos, os sebos todos reunidos. Passeando por lá eu tive o privilégio de dar uma olhada no livro "O Segredo", que é ou foi um grande sucesso no gênero. Eu então abri em uma página aleatória e havia o depoimento de uma pessoa lá, era mais ou menos assim: "Depois que descobri o segredo eu nunca mais tive problema para achar estacionamento. Bastava eu me concentrar e imaginar uma vaga no lugar que eu queria e, invariavelmente, ela estaria lá."

Veja bem a abrangência da coisa, uma coisa poderosa como o segredo usada para coisas simples, mas que fazem diferença no seu dia-a-dia comum, uma vaga em estacionamento. Quem mora em Brasília (ou qualquer outra grande cidade) sabe que isso sim significa felicidade. Isso sim é um golpe de gênio! É claro que não li todo o livro, não sei se "o segredo" promete também riqueza e poder, mas é fato que ele promete uma coisa que as pessoas desejam muito: uma vida mais fácil e menos estressante. Além do mais eu imagino que o tamanho da coisa desejada deva ser proporcional à concentração e à mentalização. De repente "o segredo" até pode te ajudar a ganhar na Megasena, mas imaginar os seis números vencedores (no meio de sessenta, acho) deve ser um feito para um antigo conhecedor do "segredo" e deve exigir um nível de concentração e mentalização muito grande. Mais uma vez, não li o livro, isso é um exercício de raciocínio, mas conseguir uma boa vaga deve ser o nível iniciante para conhecedores do segredo, a megasena deve ser o avançado. Da mesma maneira, estatisticamente é mais fácil achar uma vaga em um estacionamento do que ganhar na loteria. Temos então outro golpe de gênio, se tu conseguiu uma boa vaga após mentalizar o mérito é do "segredo", se não ganhares na loteria a culpa será tua que não te concentrou o bastante, ou seja, estamos falando da velha e boa fé, agora com uma nova roupinha da estação. Sublime!

Agora, existem algumas coisas que eu gostaria de ver. Eu gostaria de ver uma nova tendência mundial e nacional, eu gostaria de ver os livros de "eu te ajudo". Alguma coisa do tipo: "Não depende de ti, magrão, mas de mim. Eu te garanto a felicidade suprema e a riqueza máxima ou então te devolverei todo o dinheiro e tempo gastos. Vou te dar aí uma receitinha e tu só tem que prometer (e depois comprovar) que seguiu à risca e serás rico ou feliz ou ambos dentro de X dias". Isso sim seria algo mágico e inovador, um livro que me diz que eu dependo apenas de mim para ser rico e feliz não me traz nenhuma novidade. Eu quero é depender dos outros, não fazer nada e mesmo assim ser bem sucedido. Auto ajuda? Essa deixa comigo, meu primeiro passo é gastar essa grana do livro em cerveja, pelo menos para mim é mais fácil ter um momento de iluminação graças ao álcool...

Para finalizar lanço aqui o manual "Faça você mesmo sua ajuda escrevendo um livro de auto ajuda":

1 - Invista muito no visual do livro, é o mais importante. Assim como as pessoas, o que mais importa é o que está pelo lado de fora, a capa e a apresentação. Consiga aí um título de Doutor e coloque o PhD antes do seu nome, vai vender como água.

2 - Conte uma história antiga, mas não esqueça de colocar uma nova roupagem e mudar nomes. Fale coisas óbvias, mas faça parecer que isso é uma grande sacada.

3 - Bote toda a responsabilidade do sucesso na sua idéia, mas coloque toda a responsabilidade do fracasso no idio... digo, leitor. Deixe claro que coisas grandiosas levam tempo para acontecer, mas que pequenas coisas podem ser feitas no dia-a-dia para melhorá-lo (use a dica número dois para apresentar essa idéia).


sábado, 8 de dezembro de 2007

Papai Noel

Nessa época do ano eles aparecem, os Papais Noel (estava em dúvida se deveria conjugar o Noel também, transformando em Noéis, mas achei melhor não, o nome continua sendo individual e Noel, mas é mais de um papai, bom, corrijam-me se estiver errado)! Alguns são bastante falsos (considerando-se o estereótipo),barbas postiças ou até mesmo máscaras de plástico, outros são mais parecidos, cabelo de verdade, barba de verdade, uns mais gordos, outros mais magros etc, mas estão eles ali, nos "shoppings", nas lojas, em vários lugares.

Tenho ido ao um shopping por esses dias, vou lá à noite, bem na hora que está fechando e sempre vejo o Papai Noel do local saindo, bermudinhas, camisetinha, uma sacola na mão, mais um funcionário indo embora para casa após um dia duro. Eu ainda não sabia que ele era o Papai Noel, mas no momento em que o vi eu desconfiei, foi engraçado. Outro dia o vi de novo, agora durante a tarde, com seu uniforme de Papai Noel, um garotinho no colo, os dois conversando. Aposto que era a conversa padrão, perguntando se ele foi um bom menino e coisa e tal, interessante. Isso me fez imaginar algumas situações:
1 - Mesmo menino encontra Papai Noel, agora à paisana, na saída do shopping. Ele sabe que reconhece aquele cara de algum lugar, mas não sabe bem de onde. Papai Noel percebe a situação, começa a suar frio, sua identidade secreta está prestes a ser descoberta. Sem pensar muito ele aciona o alarme de incêndio, causa um tumulto no shopping, salva sua identidade, mas é pego pelas camêras de segurança e despedido no dia seguinte. Ele era o Papai Noel de verdade, no final das contas, preso ao sistema ele teve que trabalhar num shopping para sustentar a Mamãe Noel e todos os duendes ou gnomos ajudantes. Quando foi necessário, porém, ele escolheu perder o seu emprego ao invés de acabar com as ilusões e sonhos de um pobre menininho.

2 - Papai Noel sai normalmente do shopping, dirige-se ao ponto de ônibus (uma vez que animais estão proibidos no perímetro urbano) e lá encontra um Papai Noel rival, também sem uniforme. Ambos medem-se com o olhar, mas não se cumprimentam. Um deles começa a conversar com uma outra funcionária do shopping e deixa escapar um "ho-ho-ho", o outro não consegue mais se segurar e ataca, uma briga começa, são separados por uma turma de gnomos ou duendes que estava passando no local. Um deles ainda consegue gritar, ao ser arrastado: _ Impostor!

Duas histórias comoventes. Duas provas de profissionalismo até o fim e amor à camiseta, mesmo sentindo um calor danado, esse é o espírito natalino.


terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Tradução Livre

Posso estar ficando caduco, não tenho certeza se já falei sobre isso, dei uma olhadas nos títulos das outras postagens e como não achei nada lá vou eu falar das traduções que nos acompanham desde criancinha, tão desde criancinha que muita gente vive e morre e talvez não saiba que elas existam. Tem gente que nasce e morre vendo filme dublado na TV (e agora no DVD), que não vai ao cinema e que prefere assim, que já chegam as "leituras" que tinha de fazer no colégio etc.

Vinha eu para o serviço e, por alguma dessas razões malucas da vida, meu pensamento começou a vagar e me lembrei da "Patranha" (que era o Jornal do Patacôncio (que era o rival do Tio Patinhas (que era por sua vez o dono da "Patada"))). Depois de pensar na Patranha e em todo o resto eu acabei me perguntando como seria o nome real disso tudo e acabei chegando a mais ou menos o que está ali, no primeiro parágrafo: o poder de quem julga e decide se vamos saber ou não como se chamam realmente filmes e personagens e todas as coisas ondem a dublagem ou legendas são necessárias. Até vou usar um novo parágrafo.

Veja bem, essas pessoas têm muito poder, essas pessoas nomeiam! Quem nomeia tem um grande poder. Por que você acha que um pai ou mãe tem total poder sobre seu filho? De onde você acha que vem esse poder? Vem do nome! Podes pensar ao contrário também, podes pensar que tamanho é o poder que os pais têm sobre os filhos, tão imenso poder, que eles podem nomeá-los. Quem nomeia uma coisa é quase o dono dessa coisa. Pense nisso, concorde, discorde, mas é fato, quem nomeia controla. Os dubladores, pessoas que colocam legendas, pessoas que escolhem nomes já que não se pode traduzi-los sempre (no caso de filmes) e quase nunca (no caso de personagens), ou seus chefes, quem quer que seja que faça isso, essas pessoas têm poder!

É fato que acho que essas pessoas estavam indo bem até certo tempo. Descobri aqui que o nome original do Tio Patinhas "Scrooge McDuck, se baseia no avarento Ebenezer Scrooge, personagem principal do Conto de Natal de Charles Dickens" (acabei de copiar e colar da Wikipédia). Sei lá, até algum tempo atrás o Ebenezer não era conhecido aí pelos brasileiros. Então alguém fez a pergunta: Que raio de nome daremos a esse pato? Alguém então sugeriu: Que tal Tio Patinhas? E lá ele foi criado. Tio Patinhas é bom (como nome)? Tio Patinhas é ruim? Não sei, mas ele virou Tio Patinhas e pronto e então nos acostumamos a chamá-lo assim. Aqui eu escolhi o Tio Patinhas (para comentar) quase do mesmo jeito que devem ter escolhido seu nome: por acaso.

Mas se você é perspicaz, como imagino que os leitores devem ser, deve ter notado que falei no parágrafo anterior que achava que eles "estavam indo bem". Estavam do verbo "não estão mais". Por que eu digo isso? Porque tenho notado que nossas pessoas, nossos responsáveis por títulos em português andam perdendo uma qualidade fundamental, a imaginação. Se não isso, imagino que as pessoas responsáveis devem ter concluído que o público nacional é muito burro e não vai entender do que se trata o filme apenas com o título, não se interessará e, por consequência, não vai assistir. Ou então eles se aproveitam de um título que fez sucesso e que tinha as infelizes expressões repetidas (ver abaixo) e eles simplesmente as usam de novo e de novo e novamente (para não falar de novo novamente). Observe:

1 - Temos um filme, uma comédia, o protagonista é um guarda, ou cachorro, ou motorista, ou mensageiro ou barbeiro, o nome do filme será: (a) Um (protagonista) muito louco; (b) Um (protagonista) quase perfeito; (c) (Protagonista) por acaso (ou por acidente).

2 - Temos um filme que, na sua língua original chama-se "Testa" e apenas "Testa", uma única palavra. Sei lá, alguém lá deve pensar que sendo composto apenas por uma palavra o título vai mexer com a curiosidade do público (ou simplesmente que a publicidade vai se encarregar disso), mas, mas aqui no Brasil alguém vai achar que ninguém vai se interessar por um filme que tenha apenas uma palavra no título e que, portanto, não seja auto-explicativo, então esse filme vai passar a se chamar "Testa: O espaço entre a franja (de alguns) e os olhos". Ah, agora sim temos um título decente.

Não sei, não quero cair aqui no chavão e nem na hipocrisia, mas eu fico com as pessoas que escolhem nomes para desenhos infantis. Pode ser que as crianças tenham a mente mais aberta ou simplesmente pode ser que elas tenham mais paciência para assistir a algo que elas não sabem muito a respeito e, só então, decidir se gostam ou desgostam. Mas eu prefiro muito mais as traduções feitas para esse público, onde o Scrooge McDuck se chama Tio Patinhas e o Montana Max se chama,vejam só, Valentino Troca-Tapa.