quinta-feira, 19 de junho de 2008

Na selva ou Falso, eu?

Ontem me aconteceu uma coisa engraçada. Havia saído para comer no shopping, à noite, tinha que ir ao supermercado, essas coisas. Eu geralmente pago as minhas coisas com o débito no cartão do banco, mas ontem eu estava com dinheiro na carteira e resolvi pagar assim. Então eu entreguei ali a nota para a moça, vinte reais. A moça começou a examinar a nota, atentamente, na minha frente, naquela tentativa de saber se a nota era falsa ou verdadeira.

Eu fiquei envergonhado. Para ela foi uma coisa muito normal. Eu fiquei envergonhado porque, bom, eu não sou um falsificador, nem faço parte de uma quadrilha, nem tou tentando "lavar dinheiro" por aí. Se eu trabalhasse no comércio eu nunca iria conseguir fazer isso na frente de um cliente, e se fizesse eu iria morrer pedindo desculpas depois, ia dizer: _ Nada pessoal senhor ou senhora, é o Brasil né? E então dar um sorriso amarelo.

Eu podia ter feito o mesmo com o troco que ela me deu, isso me ocorre agora, e isso seria também normal para ela, acho. Eu fiquei envergonhado por ela pensar que eu poderia estar dando (voluntária ou involuntariamente) um golpe, mas fiquei mais envergonhado ainda quando percebi que isso é uma coisa necessária em nosso país: não baixar a guarda nunca, ficar sempre prestando atenção, pois a qualquer hora, a qualquer momento, alguém vai tentar te roubar, extorquir, enganar, te passar para trás.

Eu me lembro imediatamente daqueles programas do Discovery Channel, na savana africana, os gnus e outras presas sempre naquela tensão, sempre naquela apreensão. É claro que dá para relaxar no Brasil e na selva, até dá, mas daí meu irmão, as chances de tu ser comido aumentam muito, tu podes até escapar e vai, eventualmente, mas daqui a pouco tu já era. O que a moça do caixa fez, ela fez sem pensar, foi um ato reflexo. Aquela ali aprendeu que na selva não se relaxa, nunca. E tu aí? Está relaxado agora?

sábado, 7 de junho de 2008

Eu transito

Eu estou sempre correto em qualquer situação envolvendo trânsito, e vocês, estão sempre errados.

Se estou a pé eu tenho a certeza de que os veículos todos têm que me respeitar, já não basta eu estar ali, suando, tomando sol ou chuva e o meu semelhante sentadinho, ouvindo um rádio e no ar condicionado? Eu, portanto, vou atravessar a rua na velocidade mais baixa que eu puder, encarando o motorista safado, castigando-o e mostrando quem é que manda. Ele que espere, o inimigo do povo, burguesinho que tem um carro.

Se estou de carro eu acho que os pedestres são todos recalcados porque não têm carro. Eu quero é chegar lá e quero chegar depressa. Esperar não é comigo, saiam todos do meu caminho e já! O mesmo vale para quem trafega de bicicleta. Vão andar em outro lugar, que peguem um ônibus, de preferência todos no mesmo ônibus para que a cidade não fique muito cheia destes e que não me atrapalhem também.

O mesmo vale para as outras pessoas que estão dirigindo. Por que não estão andando? Motos, carros, ninguém sabe aonde está indo. Ninguém acelera imediatamente assim que o sinal abre, pior, ninguém acelera antes mesmo do sinal abrir. Eu tenho a absoluta certeza de que tenho o direito de parar aonde eu quiser, como eu quiser e quando eu quiser, estacionar nem se fala, eu buzino para todo mundo, dou sinal de luz (principalmente se estiver aqui em Feira de Santana), eu faço gestos de impaciência.

Por que eu sou um animal! Eu deixo de ser um cidadão, mesmo que eu seja normalmente um mau cidadão. Eu quero matar ou morrer tentando matar! É assim que eu sou! Adicione a isso tudo, a esse meu instinto assassino e egoísta, a falta de leis, ou falta de cumprimento das leis, a falta de fiscalização, a minha falta de educação e consideração com os outros, a minha idéia de que sou o monarca de toda a rua e você chegará ao que temos hoje. A selva de que tanto sentimos falta em nosso íntimo selvagem está recriada aí fora, sobre o asfalto ou a pedra. Só o mais forte sobreviverá.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Renomeando II

Há alguns dias atrás escrevi a respeito da nova nomenclatura que algumas coisas ou situações recebem ou receberam, numa tentativa de torná-las mais bonitas e (ou) dignas. Algo do tipo, meu emprego é uma droga, mas pelo menos tem um nome pomposo ou só pude comprar um carro usado, mas posso chamá-lo de semi-novo. Hoje eu volto atrás nessa questão pois tenho visto algumas manchetes de internet e de revistas na fila do supermercado.

A primeira expressão que gostaria de comentar é "affair", que quer dizer, no bom e velho português, para a situação em questão, caso. Tenho visto muito essa expressão ultimamente: "Fulaninha admite (ou não) affair com Beltraninho." Quer dizer, Fulaninha está tendo um caso (ou não) com Beltraninho. Quer dizer, Fulaninha está dando (ou não) para o Beltraninho. Eu não vejo nada de errado em dar (ou receber) na verdade, é uma coisa natural e acontece desde os tempos das cavernas, mas sei lá, não pega bem ficar falando por aí que Fulana está dando. O mesmo acontece com a palavra caso. Quando eu era criança, caso soava sempre como uma coisa fora-da-lei social, dos bons princípios morais e cristãos, era uma coisa assim, por baixo dos panos. Agora "affair" não, affair é inclusive em inglês, que todos sabem que é mais bonito que português e tal. Affair então, mesmo que a Fulana esteja somente dando.

Outra expressão que é típica aí de uma revista nacional, revista essa de suma importância para o crescimento do país é essa: "Fulaninho, o mais novo membro do clã (nome da família em questão)." Clã? Faça me o favor! O que a revista ou o jornalista querem dizer com isso? Acho que tenho uma idéia. É alguma coisa do tipo: família tem tu, ô Zé Povinho infeliz que nos enriquece comprando essa revista para ver como vivem as pessoas que têm uma vida que tu não mereces por ser um plebeu miserável que não chegas nem aos pés dela, esse pessoal aqui tem é clã (ou forma um), uma coisa muito mais chique e importada do estrangeiro como tudo que de fato é chique.

Então tá. Fulaninha, do "clã" Tal está tendo um "affair" com Beltraninho que tem o "título" de ex-BBB. Realmente fica mais bonito do que: Fulaninha da família Tal está dando para Beltraninho que não é nada ou ninguém atualmente, mas que apareceu na TV por alguns meses.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Por que me ufano II

Tive alguns problemas com meu servidor de internet por aqui, isso me fez perceber outra interessante peculiaridade sobre o meu Brasil varonil: aqui até o capitalismo não funciona muito bem. Vejam bem, estamos acostumados a pagar impostos (e muitos) e o nosso governo não nos dar quase nada em troca. Isso é inaceitável, naturalmente, mas as pessoas acabam por deixando como está. O que acontece, o que quero afirmar nessa postagem é o seguinte: a iniciativa privada segue o mesmo caminho! Essa é a novidade nacional!

O que aconteceu comigo, o que já aconteceu contigo é isso. Tu precisas de um serviço, tu ligas para a empresa ou prestador, tu eventualmente terás de esperar, intervalos de tempo que podem chegar a uma semana. Eu não sei, mas eu acho que a máxima do capitalismo é faturar mais e sempre e mais rápido. No Brasil não, no Brasil é assim, tu pagas e nós te atendemos se quisermos e quando pudermos, não temos muita pressa não, não queremos ganhar mais em menos tempo, na verdade não estamos nem aí para ti, quer, quer, não quer, não quer.

A minha operadora de internet, veja você, eu tinha agendado a instalação em um prazo de 72h, com um final de semana no meio, o que significa que vou esperar o final de semana mais as tais horas. Acabei ligando para confirmar no dia limite para a instalação e me atendeu uma moça que me pediu para ligar de novo, para outro ramal. Não entendi porque ela mesmo não transferiu, mas tudo bem, liguei. Atendeu uma outra fulana e me pediu para ligar mais tarde. Eu disse que não, que já havia ligado duas vezes e eles que deveriam me ligar. A resposta foi impressionante: não ligamos para celular! Quer dizer, eu ia pagar cento e cinquenta reais só de instalação, eu era o cliente, eu iria pagar mensalidades e tal. Mas eles não podiam gastar vamos lá, exagerando, quatro reais para me ligar? Que tipo de capitalismo é esse?

O Brasil é realmente um país impressionante. Na cartilha do capitalismo deve estar: "o cliente tem sempre razão", "faremos de tudo para que esse cliente queira nos pagar" e coisas do tipo, mas aqui não. Acho que a idéia dos ISO9000 que foram moda saíram daí. Aqui, mesmo tu pagando caro, por um serviço de qualidade geralmente duvidosa os caras agem como estivessem te fazendo um favor, de má vontade. Nem o capitalismo funciona direito por aqui, quer dizer, impressionante!