Acho que um dos lugares mais interessantes e divertidos para se trabalhar é um cartório de registros. Os funcionários desses lugares têm que lidar com todos os tipos de pessoas e todos os tipos de classes, todo mundo precisa ter o seu registro civil se quiser começar a ser um cidadão.
Uma pessoa quando se torna pai/mãe não tem noção do poder que tem. Não apenas sobre a vida dela e deu seu filho, mas sobre a minha e a tua vida como um todo. Mais uma pessoa no mundo é mais um eleitor daqui há alguns anos, mais um cidadão, mais um ser que vai viver em sociedade. Na minha opinião uma pessoa teria que ter autorização antes de criar uma nova pessoa, algo como porte de arma e carteira de motorista. Não é assim, muita gente será contra a minha opinião e as entendo, mas entendo que todos deveriam ser informados do poder que têm, pelo menos isso.
Há algum tempo atrás, se eu quisesse nomear o meu filho Relógio ou Penico eu poderia. Volta e meia vemos, em algum programa de tv, alguns desses nomes engraçados, engraçados para quem não os têm, é claro. Me lembro do famoso Um Dois Três da Silva Quatro. Parece que isso não pode mais, que os funcionários do cartório estão orientados a dissuadirem (não tenho certeza se podem proibir, acho que sim) os novos papais com imaginação fértil.
Então surgiram os nomes compostos por duas partículas, uma fornecida pelo pai e outra fornecida pela mãe, numa alquimia bizarra onde surgiram as Luciléias (Lúcio e Vanderléia (que por sua vez deve vir de Vanderlei e Léia (vindo Vanderlei de algum nome holandês, aposto (Van der Lei))) e os Claudiolindos (Claudete e Arlindo). Essa prática, parece-me que saiu de moda.
Os próximos da lista foram os nomes inspirados em personalidades estrangeiras, juntamente com o advento do cinema, televisão, jornais e revistas. Dessa forma surgiram os Maicons, as Daianes, os Diones, as Méris e os Dionatans, entre outros que tu deve conhecer e lembrar. Esse costume diminuiu um pouco atualmente.
Atualmente a prática é outra. Eu posso apostar que nesse momento, em algum cartório do país, alguma criança está sendo registrada com seu nome recheado de letras duplas (pelo menos um par) e/ou algum ípsilon fazendo papel de i e/ou algum agá entre duas consoantes. Eu me pergunto, no que pensam esses pais? Eu tenho uma teoria.
Quando uma criança nasce os pais traçam o deu destino de antemão. Se nasce uma criança e os pais a batizam Rhodyhvanndhelssonn (lê-se Rodivândelson) eles estão pensando, estão imaginando que essa pessoa nunca será um protagonista, dificilmente vai ser um coadjuvante e, provavelmente, nunca passará de figurante no papel da vida. Se vai ser um João Ninguém, que pelo menos seja um João Ninguém disfaraçado de alguém importante, alguém que se chame Rhodyhvanndhelssonn!
Dessa forma, os Rhodyhvanndhelssonns que quiserem e tentarem contrariar o seu destino terão que lutar contra tudo e contra todos, contra a sua situação social (não quero ser preconceituoso, mas a maioria dos Rhodyhvanndhelssonns são de classe baixa) e, principalmente, contra seu próprio nome.
Que fique claro aqui, não sou contra os Rhodyhvanndhelssonns, até torço por eles. Mas que fique claro, também, que sou totalmente contra os pais dos Rhodyhvanndhelssonns. Tu quer passar a vida inteira sem pensar uma única vez, tudo bem, mas pelo menos pensa um pouco antes de botar o nome no teu filho e presta atenção no que estou te falando, no futuro o nome mais diferente de todos será João.
