sexta-feira, 27 de abril de 2007

Criatividade

Qual o emprego-profissão que exige maior criatividade? Em que tipo de empresa uma pessoa pode ser exigida ao máximo em sua capacidade de criar? Erraste se a tua resposta foi escritor, compositor, escultor ou pintor. Erraste se a tua resposta foi em uma empresa que desenvolve jogos para computador. Erraste feio.

As pessoas mais criativas trabalham, atualmente, nas empresas que desenvolvem novas escovas de dentes! Todo dia, toda hora, todo o momento, eu sou alvejado por segundos e mais segundos de comerciais a respeito de novas escovas de dentes. Elas são capazes de escovar não apenas os meus dentes, por cima, por baixo, por fora, por dentro, em sentido inverso, de forma circular, com maior alcance, com maior poder de limpeza, mas também a minha lingua e também agora, ao que parece, minhas bochechas, o céu da boca, as amígdalas, o esôfago, a entrada do estômago e inclusive as minhas orelhas.

E olha que estou falando apenas das escovas aqui, ainda temos os cremes dentais e aqueles higienizadores bucais líquidos. Esses são capazes de proteger seus dentes e seu hálito por dias, meses, séculos. Coma o que quiser, beba o que quiser, a mil graus Celsius, positivo ou negativo. Coma alho, coma cebola. Seus dentes estarão brancos e seu hálito cheirará a rosas.

Não sei não, mas eu acho que não existe mais muita tecnologia disponível para ser usada em uma simples escova de dentes. Celulares, televisões e "videogueimes" com certeza evoluem dia após dia, mas não vemos comerciais a toda hora exaltando as novas e incríveis propriedades destes. De maneira rudimentar eu consigo fabricar uma escova de dentes, é uma pequena haste, até um pedaço de pau que se encontra na rua mais alguma coisa na ponta capaz de limpar meus dentes. Nunca seria capaz de fabricar uma televisão, muito menos um "videogueime". Mesmo assim parece que existe uma tecnologia muito superior envolvida na fabricação das escovas, é ou não é? Fico imaginando um anúncio de emprego: "Renomada empresa que fabrica escovas de dente contrata ganhador de prêmio Nobel para trabalhar no desenvolvimento de projetos, salário exorbitante."

A minha escova de dentes é assim: tem um cabo, tem algumas cerdas na ponta e é macia. Esses caras não conseguem me convencer, apenas me fazem rir.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Os eternos II

Falei ontem sobre as pessoas que vão ficar aí para sempre, para semente, como se costuma dizer. Confesso, entretanto, que me esqueci de alguns, não simples indivíduos como falei antes, mas de duas classes de pessoas que vão continuar vivas e ativas muito depois de eu morrer: os pracinhas da FEB e os sobreviventes do holocausto.

É ou não é? Domingo à noite, você voltou de seu passeio com a patroa e, talvez, as crianças, senta à frente da TV para tirar os sapatos e lá está, em algum jornal de domingo, antes do filme do Charles Bronson (Desejo de Matar 1000, onde ele irá vingar seu cachorro, já que toda a sua família e amigos já foram mortos nos Desejos de Matar 1-999) ou do Dirty Harry (velhos tempos), antes dos gols da rodada, lá está alguma reportagem sobre os sobreviventes do holocausto. Pessoas que estiveram num campo de concentração e continuam ali, firmes e fortes. Eu acho o seguinte, acho que não tem mais nenhum, acho que aqueles são todos atores contratados e acho que ninguém se dá conta. Não sei não... Pensando bem, talvez essas pessoas que sobreviveram a todas as privações, todos os perigos, todos os viéses de um campo de concentração sejam imortais mesmo, nunca se sabe...

Outros que nunca deixam de aparecer são eles: os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, que lutaram na segunda guerra mundial. Todo o sete de setembro lá estão eles, desfilando compenetrados, marchando, sendo aplaudidos e tudo o mais. Tá lá no wikipedia, a FEB foi constituída em 1943, desembarcou na Itália em 44 e conquistou o Monte Castelo em 45. De sua formação já fazem sessenta e quatro anos! Ou seja, se os pracinhas tinham em média vinte anos, atualmente eles têm oitenta e quatro! Oitenta e quatro no mínimo! Para mim a questão está resolvida, o exercíto nacional deve recrutar alguns velhinhos em asilos, fardá-los e botá-los a marchar, essa é a única explicação possível.

Pretendo ser pai um dia, posso apostar que meus filhos verão alguns pracinhas da FEB e alguns sobreviventes do holocausto, talvez os filhos deles, quem sabe...


terça-feira, 24 de abril de 2007

Os eternos

Vamos entrar num acordo: tem gente que vai viver para sempre. Vou citar apenas alguns nomes, mas tem muito mais gente aí nesse rol de notáveis:

O primeiro, ou primeira é a Dercy Gonçalves, esses dias apareceu uma notícia em que ela ia fazer ou havia feito 100 anos. Cem anos! Mas eu acho que ela está apenas na metade, acho que vai fácil aos duzentos, quem sabe aos trezentos. Não sei de nenhum grande feito dela, apenas o fato de ser irreverente, não ter papas na língua e ter uma idade avançada. Palmas para ela então, homenagens, se quiserem, mas não vamos tão longe, okay? Ela está senil, é fato, ela não tem muita culpa disso, mas por favor, vamos parar de dar um microfone para a mulher. A única coisa que ela sabe fazer é xingar e reclamar, ela é o popular idoso com mau humor. Eu acho que se falta senso crítico para uma pessoa se aposentar e parar (o que chamo de complexo de Romário), deveria existir um senso comum das outras pessoas que acham uma boa idéia chamar a Dercy para dar opinião sobre A ou B. Por favor, poupem meus ouvidos. Além disso, se estivermos em um programa de auditório, sempre que alguém acabar de dar uma opinião, por mais superficial, tosca e burra que seja, a platéia entusiasmada, sempre muito educada, vai aplaudir. Fico imaginando alguém defendendo o holocausto ou a escravidão e a platéia ovacionando o mesmo.

O Zagallo. Esse volta e meia ele aparece. Sempre que vai ter alguma copa ele está lá. Acho que o Zagallo estava lá antes mesmo da primeira copa, quiçá antes do futebol. Não me entendam mal, não torço para o "Velho Lobo" bater a cachuleta, mas sempre que ouço a musiquinha do plantão da Globo eu sempre acho que a notícia que vão dar é que o Zagallo se foi. Mas não, ele está sempre ali, falando nas propriedades mágicas do número treze e sendo aplaudido e apoiado por uma legião de pessoas que o atiçam e sendo gozado por outra legião de pessoas que formam frases com treze letras. O cara é um vencedor, é verdade, no mínimo um sortudo. Mas também chega né? Depois ele vai fazer um aviãozinho, tropeça e cai e tá lá, aquela cena deprimente de um senhor de idade que não se aguenta mais em pé e todos querem ouvir.

Agora fico imaginando os "novos", esses vão viver mais do que meus netos: Xuxa, Faustão, Gugu e tantos outros, que vamos ter que aturar durante séculos talvez. Tudo bem que vivam muito, longa vida a todos eles, mas por favor, longe dos meus olhos e ouvidos sim? Os elefantes é que são espertos, se é mesmo fato que se retiram do grupo, para morrer com dignidade...


segunda-feira, 23 de abril de 2007

300 do Iraque

Vi ontem o filme os 300 de Esparta. O filme, para variar, mostra a visão americana do mundo e cai como uma luva na atual briga americana: de um lado o ocidente (espartanos) com sua lógica, suas táticas e seu povo vigoroso e bravo (Ocidente não, estamos indo longe demais, o verdadeiro Ocidente, que são os EUA e só), de outro os "malditos iraquianos" e árabes em geral, quer dizer, os persas, ardilosos e jogando sujo, com magias e até seres mágicos ou não humanos, mas fracos e desorganizados. Vi o filme uma única vez, mas me impressionei com o número de vezes que a palavra que mais os americanos adoram e repetem: "freedom". Se você não viu, experimente contar, se vai ver de novo, conte. Eles adoram a freedom, é por isso que eles lutam e é por isso que eles estão sempre prontos a se levantar, mas me adianto.

Bueno, a mim o filme fez raciocinar no sentido contrário. Eu fiquei imaginando os iraquianos (árabes, onde tenha petróleo) como sendo os 300, fiz a analogia de um monte de árabes que não têm nada, vivendo uma vida espartana na síntese (privações, nenhum luxo, a melhor expectativa de vida sendo a morte como mártir e a redenção num "céu" recheado de virgens), tendo que lutar contra o poderoso e numeroso exército de Xerxes, com muitos homens, bem alimentados, bem equipados e com um líder querendo ser Deus na Terra. Não dá para pensar assim? Eu pensei.

Na verdade, a única analogia que pode ser feita entre Ocidente (com os EUA como seu baluarte) x Árabes "malditos" com os Espartanos x Persas é essa: uns ficam do lado de cá, outros do lado de lá. De resto é tudo ao contrário: atualmente os ocidentais é que invadem, os ocidentais que têm monstros couraçados, os ocidentais que cobrem o sol com flechas. Mas os 300, ah, esses continuam lá. O Osama (de quem não sou fan, diga-se de passagem) e alguns outros, se recusando a se ajoelhar diante do Rei dos Reis, do Deus que caminha entre os homens, nosso querido Bush e os outros por trás dele.

Os americanos (e simpatizantes) devem ter apenas ouvido os trocentos "fredom" e devem ter vibrado quando o Leônidas jogou os mensageiros no poço, tá certo, com árabe não dá mesmo para conversar, ainda mais se não nos vendem petróleo baratinho ou, mais absurdamente, não nos dão de presente. Eu ainda prefiro a "الحرية" (traduzi freedom para árabe no google, pode ser que esteja errado) dos árabes, porque a deles é a da fome, do atraso e da dominação religiosa.


sábado, 21 de abril de 2007

Futebol inteligente?

Então tá, pessoas que querem parecer inteligentes se utilizam do chavão: "o futebol é burro", "o futebol é o ópio do povo". Mas pessoas que querem parecer inteligentes geralmente pensam pouco também. Para mim o futebol é inteligentíssimo, e vou falar porque.

Vejamos, no futebol temos onze pessoas de cada lado, mais um técnico e mais um banco de cinco ou seis jogadores, não falando da administração. São onze pessoas que têm que aprender a trabalhar juntas, que têm que se posicionar, que têm que ocupar espaços e se deslocar, durante noventa minutos.

Se tu és um general, se tu és um grande estrategista, as pessoas batem palmas, as pessoas se curvam (estão aí os filmes de Oliú para provar), mas se tu és um técnico de futebol, a estratégia, essa mesma arma, passa despercebida, porque o futebol é uma coisa burra e eu vou repetir isso, sem nunca ter tentado entender bulhufas de nada. Repito e pronto, sou inteligente.

Futebol é um jogo de xadrez, onde as peças se movem de acordo com estratégia. Mais interessante ainda, as peças têm personalidade e precisam ser administradas, precisam ser compreendidas, o cavalo ou o peão vão se recusar a se mover, ou vão ocupar a casa errada se não confiarem no jogador, se não estiverem comprometidas com uma idéia e se não entenderem a estratégia. O futebol é mais inteligente e complexo que o xadrez então.

O voleibol é chato. Talvez eu não entenda bastante, é claro. É claro que existe a estratégia ali, mas o voleibol é repetitivo. Recebe, passa, levanta e corta. Por um lado, por outro, mas é isso. Não seria viável uma mesa redonda após um jogo de voleibol. Nem a arbitragem é tão decisiva. O que importará um ponto mal anulado ou validado em um jogo onde se disputam, no mínimo, setenta e cinco pontos?

O futebol é razão, o futebol é estudo. Quatro-três-três, quatro-cinco-um, três-seis-um, três-cinco-dois, quatro-quatro-dois. Mais do que isso, pegas um desses esquemas e tu podes ter variação dentro desse. Tu podes ter um losango no meio campo, tu podes ter um quadrado, tu podes ter jogadores jogando em linha, tu podes ter uma grande variedade de formatações, a que imaginares.

O futebol é humano então é sujeito às mesmas falhas e virtudes humanas. O futebol depende de estado anímico, o futebol depende de estado de espírito, o futebol depende do irracional, o futebol é um lugar onde a razão falha. E por isso a previsão sempre é arriscada. É por isso que a loteria esportiva não é sempre vencida por todos ou pela maioria dos apostadores. O futebol admite o mágico.

O futebol possui correntes filosóficas inclusive. Existem os ofensivistas, existem os defensivistas, existem os defensores do futebol técnico, existem os entusiastas do futebol força. Pessoas podem passar horas discutindo um jogo de futebol, o futebol é subjetivo.

Veja bem, o futebol é estratégia, o futebol é razão, o futebol é humano, o futebol é subjetivo, o futebol é mágico. Eu gosto de futebol porque eu torço, porque eu vibro, mas também porque eu penso. Pense futebol você também, entenda o jogo e venha me falar que é um jogo burro, sem problema. Mas não faça isso sem nunca ter tentado entender, tu vais achar que estou achando que tu és inteligente, vou estar achando o contrário.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Em cartaz

Eu não acreditei quando eu vi, mas lá estava: um longa metragem do Mr. Bean. Fui checar na wikipédia e esta me informava que seria o segundo longa metragem do personagem, "me caíram os butiás dos bolsos" (1)! Também achei outra coisa interessante no wikipédia: "O ator prometeu que seria a última porque se sentia farto de fazer papel de estúpido e burro! E oficialmente, "pendura suas chuteiras" de Mr. Bean aos 51 anos de idade."

O ator se sentia farto de fazer papel de estúpido e burro! Quer dizer, ele fez uma carreira, ganhou dinheiro, se sustentou, viveu uma vida em suma, fazendo papel de estúpido e burro. Mais do que isso, um estúpido e burro que não conseguia nem falar. Isso deu e dá audiência, pessoas pagam tempo e pagam dinheiro para ver um personagem burro e estúpido fazendo burrices e coisas estúpidas. Ele (o ator) teve que parar, ele teve que dizer chega, as pessoas queriam e querem mais. Algumas pessoas irão reservar duas horas de suas vidas, talvez mais, irão pagar caro, para ver um personagem passar esse tempo sem falar e fazendo coisas burras e estúpidas.

Tudo bem se tu estás na fila do banco e estão passando para você vários "sketchs", vários quadros do Mr. Bean, aquele é um tempo perdido mesmo. Mas eu não acredito que existam pessoas que saem de casa com a intenção de passar duas horas sentadas assistindo a isso. Eu não acredito, mas acontece. Seria um bom estudo sociológico e até mesmo antropológico ir ao cinema e assistir ao filme, mas mais do que isso, assistir à platéia. Seria um estudo muito interessante fazer uma entrevista com esse público. Por quê? Por quê? Acho que assistir a um longa metragem do Mr. Bean é como assistir um pornô com história, só que sem o pornô!

Depois as pessoas reclamam que a vida passa muito rápido, que os anos voam, que uma vida só é pouca. Eu acho que a vida anda muito longa se as pessoas têm tempo para assistir um longa metragem do Mr. Bean. Os irmãos Lumière devem estar dando voltas no caixão e se perguntando se afinal tudo valeu à pena.

Glossário:

(1) me caíram os butiás dos bolsos: fiquei surpreso, estupefato.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Mad Max

Sou um cara pacato e civilizado, não gosto de violência normalmente, mas tenho meus dias de mad max. Há dias em que sonho em viver uma época de Mad Max. Há dias em que gostaria que fosse permitido, ou pelo menos não fosse proibido sair dando tiro na rua. Isso acontece com alguma frequência quando dirijo.

Brasília é uma cidade feita para os automóveis. Foi feita numa época em que o Brasil começou a sonhar em ser grande e o carro era o futuro, o carro era o sonho. Ninguém falava em emissões, ninguém falava em aquecimento global, nada. Era só acelerar. Então tu vês amplas avenidas em Brasília, duas vias, três vias, em mão única e em linha reta. Mas Brasília tem muita gente e muitos carros e em Brasília tudo fica distante.

Em Brasília as pessoas se acham importantes. Elas moram na capital federal, elas fazem parte do governo (boa parte), elas fazem parte do Estado, elas se acham "grandes coisas" e elas dirigem dessa maneira. Em todos os lugares do mundo em que existe mais de uma faixa, a faixa da esquerda é usada para ultrapassar, evita-se trafegar por essa faixa, menos aqui. Em Brasília faixa é faixa, a idéia que tenho, do que passa na cabeça das pessoas, é essa: "sou uma pessoa muito boa, melhor que tu e todo o mundo, eu ando por onde eu quiser, na velocidade em que eu quiser e tu deves ficar feliz por ter a graça de poder estar dividindo a mesma via que eu, me siga!"

Eu cometo meus erros no trânsito, todo mundo comete. Quando erro e alguém me repreende, eu peço desculpas e reconheço, isso acontece em outros lugares do Brasil (pelo menos). Em Brasília não! Em Brasília as pessoas cometem os erros mais bisonhos, fazem as maiores barbeiragens, experimenta reclamar. Em Brasília todos têm sempre a razão, são pessoas melhores que tu, são pessoas acima do bem e do mal.

Nas entradas de Brasília podem-se observar placas dizendo mais ou menos isso: "Aqui evitamos buzinar". A placa tenta passar a idéia de que aqui vive um povo educado. Seria lindo se houvessem mais placas com os dizeres: "Aqui não falamos ao celular quando dirigimos", "aqui usamos a faixa da esquerda para ultrapassar apenas", "aqui não deixamos para pegar à direita no último momento possível e temos que cortar a frente de todos os outros miseráveis mortais que insistem em dirigir na minha via", "somos educados sim, mas apenas com pessoas melhores ou iguais a nós, porém essas não existem, somos os melhores".

Então eu sonho com o mundo Mad Max, sonho em andar armado dando tiro em gente que fala no celular quando dirige. Há um carro na minha frente, não consigo passar porque ele vai se arrastando pela faixa da esquerda, observo que ele/ela está no celular, saio atirando à vontade, menos um/uma!

domingo, 15 de abril de 2007

Me dá um dinheiro aí

Domingo a tarde, um calor do cão em Brasília, almoço e vou ver a Eliana (aquela dos dedinhos) deitado em minha cama. É um quadro onde duas pessoas endividadas disputam uma grana. No começo do quadro aparecem as histórias e as casas dos pobres coitados. Falta isso, falta aquilo, às vezes algum choro, as pessoas se emocionam. Ninguém comenta que o casal (de vinte anos que mora em uma casa de duas peças e que se vê obrigado a dormir em uma cama de solteiro) já tem três filhos! Três!

A apresentadora se acha uma boa pessoa, está dando ali uma grana para alguns miseráveis, sendo uma boa católica e tudo o mais. Ela geralmente se emociona verdadeiramente. Mas a minha pergunta é: qual o erro da apresentadora? Qual o erro do bom católico? Qual o erro do governo Lula (e de todos os outros governos até agora)? Eles dão esmola! Eles dão dinheiro! Eles não pensam a longo prazo! Eles empurram o problema para frente, mas ele vai estar sempre lá.

A Eliana, coitada, ela não tem muita culpa. Ela não é uma grande pensadora, que eu saiba e apenas reproduz o que vê e o que houve. Ela realmente acha que está fazendo uma grande coisa. Agora, o governo, a igreja, esses são grandes culpados, eles fecham os olhos e não enxergam o óbvio, cada um com seus motivos, é claro. Eles seguem pagando esmola.

Deus disse: "crescei e multiplicai-vos". Mas Deus cometeu um ato falho, ele confiou no poder de discernimento humano, ele esqueceu que homens são bichos, ele esqueceu de dizer: "desde que vocês entendam que haja condições para vocês viverem em grande número". É claro que a igerja surgiu como forma de dominação e como tentativa (bem sucedida, diga-se) de manutenção do status-quo. Na verdade Deus não disse nada, quem disse foi algum esperto em seu nome. Então tá: façam sexo apenas com suas esposas (os) e apenas com fins reprodutivos. Não previnam a gestação e vamos aumentar o número de fiéis e, de lambuja, aumentar o número de cidadãos. Depois a gente faz aí algumas campanhas de caridade para os ricos não se sentirem tão maus por serem ricos e para os pobres ficarem felizes com essa dádiva divina. Não vamos acabar com o mal pela raiz, por que esse mal nos faz muito bem.

Agora o governo. A primeira coisa que uma pessoa faz quando chega ao poder é pensar: E agora? Como farei para me manter no poder? A primeira e a única, na verdade. Educar um povo sem educação, isso leva tempo. Tentar iniciar um processo que só vai acabar daqui há vinte anos, isso não dará resultados imediatos e assim eu vou sair do poder. O povo tem que estar feliz e o que faz o povo feliz? Dinheiro! Dinheiro "de graça". Dinheiro que se ganha apenas por se existir. Então tá lá: bolsa família, bolsa educação, bolsa isso e bolsa aquilo.

E nessas o povo fazendo filho, faturando uma grana e todo mundo feliz: Deus porque sua vontade está sendo realizada, a Igreja porque sua vontade está sendo cumprida, o Governo porque seus objetivos estão sendo alcançados e o povo, ganhando uma graninha mole. O que mais me incomoda, entretanto, não é isso, o que mais me incomoda é a cara-de-pau (porque em ingenuinade eu não acredito mais, pelo menos não da parte dos manda-chuvas) das pessoas afirmarem, ou fazerem de conta que acreditam que estão fazendo o bem.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A voz do povo

Tu com certeza já disseste e tu com certeza já ouviste a expressão: a voz do povo é a voz de Deus. É um jargão consagrado, programas de tv com seus âncoras, apresentadores, animadores, repórteres adoram repetí-lo. Políticos e demais eleitos amam falá-lo. É um sucesso!

Entretanto, ninguém pensa muito bem nas consequências dessa afirmação. Vivemos num país monoteísta. Tá bem, nem tão monoteísta pois o Candomblé tem seus orixás e tudo o mais, mas mesmo eles acreditam ou pelo menos falam em Deus, com "dê" maiúsculo, que no final das contas é o deus dos cristãos e evangélicos, maioria no Brasil.

Pois bem então, vamos supor que existe um deus e que esse deus é o dos cristãos e evangélicos. Qual a implicação que a veracidade do jargão acima? Aonde eu quero chegar? Vamos nessa. Se existe um deus, se esse deus é o Deus dos católicos e evangélicos, se esse Deus tem um livro sagrado, se esse livro sagrado é a bíblia então o resultado de "a voz do povo é a voz de Deus" é, no mínimo, intrigante.

Vejamos: Está lá na bíblia que Jesus Cristo teve uma chance. Pôncio Pilatos perguntou ao povo quem eles gostariam de ver libertado e perdoado. Quem o povo escolheu? Barrabás! Ou seja, se a voz do povo é a voz de Deus, foi Deus quem escolheu que Jesus fosse morto, mais ainda, se Pai, Filho e Espiríto Santo (não o estado, por favor) são uma entidade só Deus é fatricida e suicida e, mais ainda, se Deus é suicida ele deve estar no inferno numa hora dessas, porque é para lá que vai essa gente segundo a bíblia novamente (se não me engano).

Então, meu amigo, cuidado, se tu temes e acredita em Deus, pensa duas vezes antes de repetir o odioso jargão, além de cair no lugar comum tu estás correndo o risco de despertar a ira divina. Cuidado.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

O melhor emprego do mundo

Para mim, um dos melhores empregos que existe é o daquele cara que fica batendo os pratos em uma orquestra, não sei nem se ele tem um nome especial ou não, para mim ele é o cara dos pratos.

A entrevista de emprego deve ser assim: tu tens duas mãos? Tens um terno (ou smoking)? Consegue bater esses dois pratos quando eu faço assim com a cabeça (o maestro faz um gesto com a cabeça) ? É bem simples, só queremos um "pchi" no meio de algumas músicas e um ou vários "pchis" no final de outras, que tal? Pronto! Passando por todas essa provas o homem é aprovado.

Fico imaginando os outros músicos, um tem um piano para tocar com não sei quantas teclas, outro uma harpa com trocentas cordas, outro toca violino, outro violoncelo e ele ali parado, perfilado com um prato em cada mão, só esperando o momento certo de fazer um "pchi" ou um "pchi-pchi". E no final do dia, em um bar ele pode impressionar uma mulher que pergunta:

_ Então, o que você faz?

Ele enche a boca e responde:

_ Sou músico. Toco em uma orquestra filarmônica.

Ela sorri maliciosamente, está no papo, mulheres adoram músicos como todos sabem. Que grande emprego, que ótimo emprego, eu invejo o cara que toca pratos.

terça-feira, 10 de abril de 2007

TV aberta (sem) qualidade

Não tenho tv à cabo. Muita gente não tem. Acho cara e acho que já tenho muita conta para pagar, mas não é disso que quero falar. Quero falar de um comercial que passa constantemente na tv aberta, aquela que tirando a energia elétrica "é de grátis". No comercial aparecem os nomes (ou siglas ou símbolos) de várias emissoras abertas e um narrador faz comentários ufanando-se de possuirmos uma tv aberta de grande qualidade. Eu acho que a idéia por trás disso é aquela de: "uma mentira repetida muitas vezes acaba virando verdade".

Eu vejo tv aberta e é claro que acho que temos alguns bons programas se pensarmos em entretenimento agora, em relação a cultura eu não iria tão longe, male-male conseguiria dar um passo. Por motivo de justiça vou comentar apenas sobre os canais a que tenho acesso, com minha ultrapassadíssima e cheirando a museu antena interna: Globo, Sbt, Record, Mix Tv e uma tv com dupla personalidade que é parte local e parte nacional, às vezes se chamando TV Brasília e outras Play TV. Vamos lá?

Globo: este é o canal que menos vejo, uma vez que (calculo rapidamente) um terço de sua programação é feita de novelas e eu não assisto novelas. É um canal que investe em seriados nacionais, em sua maioria de caráter cômico que não me atraem desde a origem, pois apelam para piadas de mau gosto, fazendo apelação sexual ou tendendo para o pastelão, o que chamo de comédia burra. Isso colabora para tornar a população menos crítica e mais passível de aceitar o que é errado e deveria ser banido. Exemplo: todos ficam indignados com um político corrupto ou mau caráter, mas não ficam o bastante. Vemos seriados onde os "mocinhos" são pessoas que não trabalham, além disso, mentem, roubam ou enganam para se dar bem e isso, pasmem, é engraçado. Me lembro do "Sai de Baixo" e da "Grande família", temos uma pessoa que trabalha, é honesta e sustenta uma turma (os heróis) que só pensa em faturar. Isso não tem graça nenhuma para mim, mas é algo que fica valendo como nova moral, fica sendo legal ser safado. Ninguém condena esses personagens, pois isto é ficção, mas a ficção sempre influenciou a vida real. É um canal que investe em tecnologia, sem dúvida, a imagem é boa, os cenários são bem feitos, o som é de boa qualidade, mas o conteúdo fica devendo a cultura passa um pouco longe. Até mesmo os programas que tentam mostrar alguma coisa um pouco mais informativa se concentram na superfície, nunca nada é aprofundado.

SBT: Eu sempre fico imaginando o Sílvio Santos como um cientista maluco, mexendo e mudando a programação a seu bel prazer. Tu começas a ver um seriado americano (porque eles importam) e este muda de horário ou deixa a grade de programação sem aviso prévio. Nada tem horário definido, tudo atrasa, esse programa é depois daquele, mas o horário, bom, esse não existe. Falei dos seriados americanos, tem gente que não gosta, eu sim (é claro que não gosto de todos). É claro que existe uma idéia a ser passada por trás de cada um deles, mas uma boa parte deles está ali para criticar ou comentar sobre a sociedade, para rir de si mesmo. São melhores que os nacionais onde a mensagem é: somos assim mesmo, para quê mudar. É claro que os seriados americanos não são para se ficar refletindo depois, não é nada muito profundo, mas acho que são bem melhores. Ainda sobre o canal existe o Chaves. A idéia parece ser a seguinte: não está funcionando, ninguém está vendo isso, bota aí o Chaves, a hora que for. Alguém vai querer ver. É um canal que não considero sério, cujo respeito pelos telespectadores parece ser nulo. A audiência cai, o anunciante sai, nós mudamos. Em relação a som, imagem e cenários, ver o SBT é como uma viagem de volta ao passado, pelo menos para mim.

Record: é a tv da Igreja Universal e isso já é um começo. Sempre vou suspeitar do jornalismo das tvs, mas vou suspeitar um pouco mais do jornalismo de uma tv que pertence a uma Igreja. Lembro de ver uma reportagem, no jornal de domingo, sobre a igreja universal e fico imaginando o repórter com um roteirinho nas mãos: isso tu mostras, isso tu não mostras, isso tu comentas, isso tu esqueces. Ele não deve ter tido autonomia total, é nisso que acredito. Tem bons quadros de entretenimento também, algumas novelas (que não vejo), alguns programas de auditório e os seriados americanos policiais, que passam a idéia que os americanos sim é que são bons, que lá o crime não compensa e etc, mas que, tirando tudo isso servem bem para passar o tempo. A Record, ao meu ver, é uma espécie de mini Globo, copiando o formato e alguns dogmas como as novelas e o jornal de domingo, com algum futebol no meio disso tudo, mas com a vantagem de não contar com alguns dinossauros que se recusam a se extinguir (Xuxa, Faustão, Jô Soares (outro dia falo desses)). Novamente, cultura? Não!

Sobre as tvs menores bom, essas têm a vantagem de ter menos ambição, podemos ver algum filme geralmente, algum documentário, alguma coisa diferente do padrão: novela, jornal, programa de auditório, seriado e esporte. É uma boa opção se tu queres assistir tv, mas tu queres alguma variação.

Não sei bem ainda qual era minha idéia sobre essa postagem de hoje, mas foi isso que saiu. De fato, isso é assunto para mais de um dia, para um livro, para um tratado. Talvez não devesse me arriscar a escrever sobre algo que só pudesse tratar de modo superficial. Talvez o título não seja apropriado, talvez a definição de qualidade seja uma coisa ampla e pessoal, por via das dúvidas não vou assistir tv logo mais.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Depois do fim (ou pela volta do The End)

Estava vendo um filme agora e me lembrei de uma coisa que virou padrão no cinema: o fim depois do fim. É aquilo, você está ali sentado e o filme acaba, não existe mais aquele negócio de "the end" que tinha antigamente, mas o filme acabou, certo? Os créditos passando, as pessoas saindo, aquele monte de sujeira no chão (no escuro as pessoas perdem o senso de sociedade e viram bichos) e tu ali, esperando por mais alguma coisa, tentando enxergar entre cabeças e escutar entre comentários. Vai ter mais alguma coisa? Não vai ter? O professor Xavier morreu mesmo? Não acredito!

Vou dizer uma coisa: que saco! Pô, eu paguei o ingresso, eu tenho o direito de escolher se quero ver quem era o mocinho e a mocinha (caso não saiba) e tenho o direito de escolher se quero saber quem eram o cop #1 e o cop #2 e também tenho o direito de escolher se quero ver quem era o cameraman e o maquiador, mas isso depois de o filme acabar, no final, no final mesmo! Não antes do fim, já tive que ver os créditos de abertura, já tive que ver os comerciais antes do filme, por favor, me deixa ir embora.

Em metade dos filmes que tenho visto ultimamente eu sempre descubro que não vi o final ou que alguma outra pessoa não viu o final. Imagine um jogo de futebol, o juiz apita e tu sais comemorando: "é campeão, é campeão. Mais tarde tu vais ver os gols da rodada e descobre que teu time foi apenas vice. Tu perguntas: mas como? Eu vi o juiz apitando, o time estava dando volta olímpica e tudo... Te responderão: É, mas depois que o pipoqueiro saiu teve um último lance, o centroavante adversário aproveitou-se que teu time estava no vestiário, recebeu sozinho e marcou o gol da vitória, na verdade eles foram os campeões.

Não, assim não dá, exijo a volta do 'The End"!

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Sabedoria Milenar

Acabei de ler uma reportagem aqui. Ela falava que na China o homossexualismo era considerado uma doença mental até 2001. Na mesma hora eu lembrei do feng shui que, segundo um site que abri aqui (viva o Google) é: "a antiga arte chinesa de criar ambientes harmoniosos e que se originou há 5000 anos".

Muito bem, o feng shui é mágico, é chinês e é milenar. Isso basta para ser acreditado e seguido por inúmeras pessoas, mas aparentemente, o tempo não ajudou os sábios chineses em outras coisas, como lidar com o homossexualismo. Não sei não, mas me parece que há um paradoxo por aqui. De repente o povo chinês não é tão sábio assim.

O feng shui é um fato, pessoas sofisticadas o seguem de olhos fechados, gastam dinheiro com isso e se acham legais e inteligentes. Sempre acho engraçado uma pessoa dessas achando engraçado uma pagelança ou algum ritual indígena daqui do Brasil ou de algum outro lugar menos famoso. Tenho uma novidade para vocês: a pagelança é mágica e é milenar também. É tudo a mesma coisa! Apenas não é chinesa. Então a ignorância é dupla, tu és ignorante por acreditar no feng shui e és ignorante novamente por fazer pouco caso da pagelança que nada mais é do que um feng shui sem o "glamour" de ser chinês.

Ah, mas tu vais me dizer. As ervas conhecidas pelos índios realmente curam e eu vou dizer. Sim, isso é verdade, mas também quero que tu te lembres que existe um conhecimento empírico válido por trás disso. Agora, uma coisa é curar com infusões e medicamentos feitos com ervas, outra coisa é curar através de rituais aos espíritos e é desse último que tu vais rir enquanto teus móveis estão alinhados de acordo com algum fluxo energético que ninguém consegue medir.

Então, meu amigo adepto da famosa arte milenar chinesa. Pense duas vezes antes de rir de alguém que acredita que o trovão é um deus, tu não é muito melhor do que ele.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Viagem e Viajar II

Se tu vais de avião:

Aqui, pelo menos, o tempo de martírio será menor, certo? Sim, se o avião não atrasar, porque o seu vôo sempre vai atrasar, algo sempre vai acontecer. O "motorista" vai sentir uma dor de barriga, algum instrumento precisará ser consertado, uma névoa tomará conta do aeroporto, provavelmente junto de uma grande chuva, provavelmente senda a única área afetatada num raio de mil quilômetros.

Tente comer antes de sair de casa, sua vida pode depender disso, ou prepare-se para gastar todo o dinheiro destinado à viagem em um mísero cafezinho. No aeroporto as coisas são assim: Um café? Cinquenta Reais. Um Sanduíche? Duzentos Reais. Um almoço? Um trilhão de Reais. Há um exagero, é claro, mas os preços praticados em um aeroporto são coisa de outro país, melhor, outro mundo. Outro mistério da humanidade. É claro que tu podes comer no avião mas, a menos que tu pretendas e possas matar a fome com um mini pacote de amendoim e uma bolachinha água e sal, esqueça, faça um lanchinho em casa, sim?

Sua mala. Lembre-se que um segundo após fazer o check in tu vais te lembrar que esqueceste alguma coisa que deveria estar na bagagem de mão, não importa quantas vezes tu conferiste e lembraste de pegar antes de despachar a mala essa coisa vai desaparecer de sua vista naquela esteira rolante. Outra coisa, não leve nada quebrável dentro de sua mala pois ela vai quebrar, principalmente se contiver algo líquido dentro, algo que não apenas molhe, mas inutilize suas roupas. De preferência compre uma mala indestrutível. Tu já viste como os funcionários do aeroporto retiram sua mala daqueles carrinhos, para serem postas na esteira? Eles arremessam! Sem dó nem piedade. Tá certo, eles devem odiar malas, são malas chegando e chegando e chegando, ninguém seria capaz de aguentar. Agora, se você escapou de tudo isso ainda existe uma grande chance: você desembarca no Chuí e sua mala desembarca em Oiapoque...

Dentro do avião as coisas são engraçadas também, para começar aquelas poltronas. Imagine você, o Maguila e o Rei Momo na mesma fila, que conforto! Quanto espaço! Pessoas normais nunca ficarão confortáveis numa poltrona de avião. A situação fica pior na hora de comer os amendoins, acredite, tu vais agradecer que não é uma refeição completa, imagina ter que controlar um garfo e uma faca se tu não tem espaço nem para respirar. Na minha opinião o amendoim não é contençao de despesas, é contenção de espaço.

Outra coisa, te prepara para sentir muito frio ou muito calor ou ambos. Se levaste um casaco e colocaste antes tu vais sentir calor, se tu esqueceste de pôr pode esquecer de vez, pois será impossível vestí-lo no cubículo em que estás sentado, e passarás frio.

É por essas e é, também, por outras que devo ter esquecido que odeio viajar, adoro uma viagem, mas espero todos os dias ligar a tv ou o pc e descobrir, maravilhado, que o teletransporte já foi inventado.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Viagem e viajar

Vamos combinar uma coisa: viagem bom, viajar mau. Existe uma grande diferença entre as duas palavras, embora as duas se relacionem totalmente. Quero dizer, a viagem em si é uma coisa boa, tu mudas de ambiente, conhece novos lugares, novas pessoas, novas formas de viver, pensar e aumenta a tua bagagem cultural, polegar apontando para cima. Agora, até tu chegares lá, meu amigo, a história é diferente. Tu tens que passar por um purgatório, tens que aguentar muita coisa, tens que penar. Vejamos:

Se tu vais de ônibus:

O primeiro fato que tu podes observar, ou melhor, escutar e cheirar, quando sentas em um ônibus são as latinhas de refrigerante se abrindo, juntamente com os pacotes de salgadinho. Tu tentas identificar a pessoa que tomou tal atitude e imediatamente tu reconheces aquele cara (masculino ou feminino) que estava ali do teu lado, na rodoviária, que havia chegado junto contigo, há meia hora atrás. Minha pergunta é: por que ninguém consegue comer antes de embarcar? Qual o fator que influencia, que obriga uma pessoa a somente abrir seu gostoso aperitivo após sentar-se no banco do ônibus? Esse para mim é um dos maiores mistérios da humanidade. Ainda bem que saiu de moda o pessoal fazer e levar seu próprio lanche, que deveria ser um pão com linguiça e/ou as bergamotas (se tu não é gaúcho conhece isso por mixirica) que possuem aquele aroma característico.

Continuemos pois. O segundo fator é o fator sinta-se sujo. Não sei vocês, mas no momento em que sento no ônibus sinto-me imediatamente sujo. Três horas sentado em um ônibus equivale a: suar como se tivesse corrido uma maratona e, ficar com o hálito de quem comeu um rato e foi dormir sem escovar os dentes. A primeira coisa que tenho que fazer, imediatamente após descer de um ônibus é achar um chuveiro e uma escova de dentes. Esse é outro fato bastante misterioso para mim, o ócio que emporcalha.

O próximo obstáculo que, com certeza terás que vencer, é o bebê chorão. Existe uma lei que atesta que: "Em toda e qualquer viagem que dure mais de duas horas invariavelmente haverá um bebê chorão que não conseguirá ser acalmado de maneira nenhuma por pais, avós, mamadeira ou brinquedo. Em caso da não existência de uma pessoa portando um bebê ele se materializará automaticamente, com os pulmões em perfeito estado e prontos para serem usados e, acredite, ele usará."

A seguir sabemos que outro viés se instalará no banco ao lado: o passageiro solitário, chato e conversador. Não adianta, você comprou uma revista, você levou um walkman, você selecionou músicas no seu mp3 player, você planejou dormir toda a viagem, você é patético, você não sabe da existência do passageiro solitário, chato e conversador e agora é tarde demais. Ele vai sentar ao seu lado, ele está disposto a falar durante sete horas seguidas, você vai saber tudo sobre toda a vida desse infeliz que não escolhe vítimas, ou melhor, escolhe, você! Não importa se o banco ao seu lado já esteja ocupado por um amigo ou namorado, ele vai sentar no banco imediatamente atrás do seu ou no banco imediatamente a frente do seu. E o solitário, chato e conversador fala alto, fala muito alto, ele grita!

Algumas empresas, compadecidamente, passam filmes durante as viagens. Ah, que delícia, o tempo vai passar mais depressa, certo? Errado! O filme que vai passar você já viu, quinze vezes! Se não viu é uma bomba que você nunca se arriscaria a ver. Ele vai ser dublado. Se a viagem durar muito tempo, ele vai ser repetido (uma vez vi "A Múmia" umas quatro vezes durante uma viagem). Um dos filmes sempre será do Míster Bean. Você é um ingênuo! Você ficou feliz quando o monitor ligou...

(continua)

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Estereótipo (ficção)

Sujeito chega na sede do PCN (Partido Comunista Nacional) e vai direto à secretaria, ele quer se filiar. O secretário o olha de cima a baixo, um tanto quanto desconfiado, lhe aponta um livro em uma estante, capa surrada, aspecto de muito usado e lhe pergunta:

_ Que livro é aquele?

Sem se mover, sem mesmo chegar mais perto o rapaz afirma:

_ Trata-se do Manifesto Comunista.

Ele fornece o ano de edição, a editora, o número de páginas e inclusive cita algumas passagens, fornecendo as páginas corretas. O funcionário se espanta um pouco, sorri surpreso e lhe apresenta uma ficha de inscrição.

Ele prenche seus dados e responde um questionário com perfeição, demonstrando que conhece a ideologia marxista, conhece as idéias do partido e é comprometido com a causa trabalhadora. O funcionário sorri novamente e o informa que ele deve participar das reuniões, que deve conhecer os camaradas e que ele mesmo não tem poder para aprovar ou recusar alguém de antemão (na verdade o funcionário, perplexo, está tentando ganhar tempo).

Na próxima reunião lá está ele, sentado na primeira fila, todos os presentes o olham e o analisam, ele fica um tanto quanto desconfortável, mas segue firme, deve ser um teste, pensa ele. A reunião segue, ele fala, discursa, todos ficam entusiasmados com suas idéias e seus conhecimentos, mas ele nota que as pessoas não estão mais receptivas do que antes. Finda a reunião, o líder local se apresenta ao sujeito e o chama para uma conversa particular.

_ Sinto muito, mas vamos ter que rejeitar o seu pedido de filiação.

_ Por quê? Sou um comunista convicto. Já provei mais de uma vez que conheço a ideologia, acredito nela.

_ Isso tudo o que você falou é verdade, mas achamos que você é um espião, estamos em dúvida e achamos melhor não arriscar.

_ Mas por que? Por favor, me diga, que ato, que palavra, o que os faz pensar assim?

_ Você não usa barba...

Sujeito perplexo. Líder sem jeito.

_ Mas eu tenho uma síndrome rara, veja, não nascem pêlos no meu corpo, veja, não tenho cabelo, não tenho cílios, não tenho um único pêlo.

_ Talvez uma peruca, uma barba postiça... Sem barba não dá...

O rapaz sai triste e desiludido, abre uma fábrica de perucas, barbas e bigodes postiços e hoje é um rico capitalista.

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Idéia baseada em uma propaganda do Partidão (PCB) vista há uns dias atrás na TV, onde todos, sem exceção todos os homens que falaram usavam uma barba, mais longa ou mais curta, que cobria seus rostos completamente.