segunda-feira, 14 de maio de 2007

Meu gato

Esses dias estava pensando no meu gato, na verdade gata (a de estimação), mas sou meio Urtigão meio Tarzan, a gata é gato, a cadela é cachorro (não uso o cão do Urtigão). Bom, tu vais me perguntar: tu não tens mais o que pensar? Tá bem, tem gente que pensa na "morte da bezerra", mas pensar num gato, ou melhor, numa gata? Mas já explico.

Essa minha gata é uma vira-lata, minha mulher (e agora eu por causa dela) é uma protetora dos animais. Ela sempre acha que é besteira comprar um animal de estimação se há tantos bons bichinhos abandonados na rua e temos apenas duas como está na minha descrição porque não temos mais espaço. Ter um bicho dito de raça porém, para muita gente, é uma questão de status, algo como tenho o carro e o cachorro do ano, mas não é sobre isso que ia falar.

Como ia dizendo, nosso gato tem quase um ano de vida, um gato que vive bastante vive em torno de vinte anos. Nós a pegamos quando ela não tinha duas semanas, um dia quem sabe eu mostro uma foto. Mas meu gato, desde esse tempo nunca saiu do meu apartamento e meu apartamento é muito pequeno. Vá lá, meu gato saiu algumas vezes para o que se pode chamar de área social, aquele espaço que os quatro apartamentos do andar compartilham. Está bem, ela foi um pouco mais longe, ela foi até o andar de cima, uma vez que deixamos a porta aberta.

Minha cadela é uma sortuda. Os cães não são tão espertos (para não falar burros, vá que tenho um cachorro leitor, vai saber...) para usar uma caixinha de areia, então temos que descer com ela até um campinho que tem ali perto. Além disso, ela consegue mais ou menos andar na coleira, pelo menos ela não enlouquece como imagino que um gato faria. Ela é mais velha também, mas é uma sortuda, ela viu um mundo maior que o nosso apartamento e era aí aonde queria chegar.

Se alguém pudesse entrevistar o meu gato, no intervalo de alguma brincadeira (ela faz o globo da morte (lembra, aquele troço de circo com as motocicletas correndo em volta de uma grande bola (por dentro, é claro)) no sofá da sala, ou no intervalo de algum cochilo. Se alguém pudesse perguntar a ela o que acha do mundo, a resposta ia ser mais ou menos assim: "Olha, o mundo é muito maneiro (ela gosta de usar gírias antigas), pequeno, mas confortável, tem um lugar lá onde sempre vou e tem comida, no outro sempre tem água, tem um cantinho legal onde, por mais que eu faça minhas necessidades, ele sempre aparece limpo, tem uns seres meio grandes que me abastecem e me dão um colo de vez em quando, tem outro ser de quatro patas que também me trata bem. Eu imagino que exista mais coisa até, costumo espiar por entre duas barras, mas nunca fui lá, pensando bem, nem me faz falta."

Era nisso que estava pensando, não exatamente no meu gato, mas na vida que ela leva e na idéia de mundo que teria se tivesse alguma idéia, ela não viu nada, ela não fez muito. Ela é apenas um bicho de estimação porém, um ser irracional e todos os etcéteras que acompanham um gato. Minha pergunta é: O quanto me pareço com meu gato? O quanto te pareces com meu gato? Já pensaste nisso? Devia.


2 comentários:

Sr. Leandro disse...

Excelente. Eu acho que todos vivemos uma vida meio "gata-do-Marcelo", vivemos presos em um pequeno mundo (vou evitar a palavra "microcosmos"), onde as coisas com as quais temos contato são em número limitado, em comparação com tudo o que está disponível mundo afora. Mas, o mais importante, este é o mundo a que temos acesso. Ao contrário do que Hollywood ensina, dificilmente, ou quase impossívelmente, viveremos tudo o que o mundo tem a oferecer, coisas do tipo "mochila nas costas" (eu tenho uma especial má vontade com quem diz que vai "botar mochila nas costas"), porque existem coisas que a gente precisa fazer que nos impedem disso. A vida é assim, é feita disso, gostemos ou não. O que cabe a nós, "gatos de apartamento", é aprender a dar valor aos "Marcelos" e "Pitis" que temos ao nosso lado, aos "sofás-da-sala" e "caixinhas-de-areia" da vida. Mas, obviamente, sempre que ninguém estiver olhando, não custa dar uma escapadinha pra rua, não é mesmo? Grande abraço!

Anônimo disse...

Bom,o teu Gato parece estar acorrentado no fundo da caverna. Falando na já manjadíssima analogia do Platão.
A questão toda é que ele também parece estar absolutamente satisfeito com isso. O que eu acho que é bom. Alias, acho que isso é o mais importante. Principalmente pq o teu gato parece estar verdadeiramente satisfeito com a situação em que se encontra.
Tenho certeza que a maioria das pessoas são como o teu gato, mas poucas são as privilegiadas de viverem a mesma satisfação com a sua propria realidade.
O estado de espirito do teu gato devia ser a busca de cada um. Não o de viver num mundinho restrito, mas de achar o tamanho de mundo que satisfaça. Seja um bem pequeno, ou um do tamanho do planeta.