terça-feira, 22 de abril de 2008

Renomeando

Esses dias fui no supermercado. Lá tinha a foto de uma moça, jeito simples, uniforme de trabalho. Abaixo da foto estava escrito: "associado do mês". Eu fiquei feliz. Meu primeiro impulso foi procurar a moça, perguntar quanto ela ganhava nessa sociedade e, talvez, perguntar como eu mesmo poderia me tornar sócio. Ia ser muito chique dizer, quando perguntassem, o que eu fazia:

_ Olha, eu sou sócio de um supermercado, a sociedade é assim, eu trabalho vinte mil horas por mês, inclusive aos domingos e ganho um salário mínimo!

Eu fico me perguntando quem é que engole essa? Ninguém, é claro, mas alguém alguma vez, por acaso, deve ter dito que isso faria bem para a auto-estima dos funcionários, um diálogo do tipo entre o administrador regional e o gerente:

_ Vamos chamá-los de sócios!
_ Quem?
_ Ora, os funcionários! Isso elevará o moral dos rapazes e das garotas, fará com que se achem mais importantes, serão mais felizes e renderão mais!
_ Não seria mais eficaz pagar mais?
_ Você está demitido!

Fato é que os novos nomes surgiram de algum lugar de fato que ninguém mais é empregado, é associado ou então colaborador. Ninguém mais está desempregado, mas sim disponível no mercado. Ninguém é deficiente mental ou físico, é especial! Agora não me ocorre nenhuma outra expressão usada para dizer algo quando temos vergonha de dizer a verdade, mas elas estão aí, a nossa volta e aos montes. Estou apenas esperando o momento do desvirtuamento total dessa "técnica", pois isso acontecerá, como toda criação da humanidade que acabou sendo desvirtuada. Tenho até algumas idéias:

- Amante das crianças: novo e bonito nome para pedófilos.
- Redistribuidor de renda: ladrão.
- Caridosa sexual: puta.


E você, amigo leitor? Lembrou de algum nome pomposo para alguma atividade medíocre ou condição? Tem alguma sugestão para novos e elegantes nomes para coisas que nos incomodam?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Caminhonetões

Tenho acompanhado vários comerciais anunciando esses veículos além de vê-los cada vez mais nas nossas ruas e estradas. São caminhonetes grandes, imensas, imponentes, caminhonetões mesmo, cada vez maiores. Sou do tempo em que as pessoas usavam caminhonetes para fins profissionais, para transporte basicamente. Eram as F100 (mais tarde F1000) da Ford, as Veraneio (depois D20) da Chevrolet e deu para a bola até que, até que alguém resolveu inventar a cabine dupla e então ninguém mais as parou e então hoje vemos caminhonetes do tamanho de navios, sem exagero. Certo, talvez um pouco de exagero. Elas são lindas, é claro, o pessoal capricha no desenho. Elas são poderosas, é claro, o pessoal tasca cavalos no motor. Nunca dirigi uma, mas acredito que o motorista deve sentir uma injeção de testosterona, deve se achar uma pessoa muito poderosa e confiante. Eu penso nessas caminhonetes como uma grande vitória do "american way", do consumo desenfreado e do excesso supremo de conforto, algo do tipo: "preciso apenas me movimentar daqui até lá, mas vou gastar o máximo de energia para fazer isso e vou ocupar o máximo de espaço já que esses são disponíveis e baratos".

A minha pergunta é: só eu que vejo uma certa incoerência aqui? Veja bem, antigamente havia menos gente e mais espaço. Estacionar era uma operação normal e rotineira, era fácil achar uma vaga e botar ali o seu Fiat 147 ou Passat. Atualmente as coisas são diferentes, em Brasília, onde morei até pouco tempo, uma vaga é uma coisa disputada a unhas e dentes, é uma coisa rara. É claro que o proprietário de um veículo desses pode pagar um estacionamento e tudo o mais, mas mesmo assim. Além disso, se não pensarmos em estacionar, mas simplesmente andar, eu imagino que uma coisa daquele tamanho vai ser mais complicada de se guiar em um engarrafamento, mesmo com a direção hidráulica e todo o conforto que esses veículos devem ter. Outra coisa que me incomoda bastante é que estamos no auge da conscientização mundial sobre os efeitos da emissão de gases e do aquecimento global. Eu não sei não, mas eu acho que um carrão daquele tamanho, por mais avançado que seja seu motor, é um agente poluidor bem mais eficaz que um carro com um motor semelhante, só que menor. Então, um carro desse tamanho está meio que atravancado na contramão do ambientalmente correto.

E então leitor? Você teria, se pudesse, um carro do tamanho de um dinossauro? O que você acha disso tudo?

terça-feira, 8 de abril de 2008

Capecetes e Hierarquia

Fui ali comprar uns adesivos para colar no meu capacete. Pois é, eu ando de moto apesar de todos ficarem repetindo que é perigoso e apesar de ter certeza que é mais perigoso que andar de carro. Não posso com a repetição da frase: "moto foi feita para cair". Sempre que me falam isso eu pergunto se os aviões também não foram e se os navios não deveriam afundar, é o velho esquema do ouve e repete, sem pensar muito... Mas não era disso que quero falar. Fui comprar os adesivos porque o novo código de trânsito exige que o capacete os tenha, paguei lá o preço e colei ali os tais adesivos, bueno, tenho certeza de uma coisa: Em nenhuma circunstância os tais adesivos vão me salvar em um possível acidente! Nunca, eu tenho certeza, nunca alguém vai passar por mim na estrada ou rua e dizer: "Olha rapaz, esse adesivo aí acaba de salvar a tua vida, eu só te vi, um cara grande numa moto grande, com os faróis ligados, graças a esse adesivo que tu tens aí colado no teu capacete". Bom, essa história é bem parecida com o kit de primeiros socorros que os carros tinham ou têm que ter, tá lembrado? Eram uma gazes, uns esparadrapos e outras tranqueiras. Coisas que supostamente iam salvar a vida das pessoas com hemorragia interna ou fratura exposta que tinham acabado de bater seu fusquinha num caminhão. Eu tenho certeza que o malfadado kit, que todos tinham que comprar, nunca salvou uma vida. Nunca!

Acontece, e é nesse ponto que quero chegar, que os agentes da lei haviam de fiscalizar a presença do tal kit juntamente como devem fiscalizar hoje a existência dos tais adesivos. Eu nunca poderia ser militar é isso que queria dizer. O militar tem que obedecer ordens e tem que obedecer hierarquia. Imagina só, tu ali, na frente do pobre infeliz sem os adesivinhos no capacete. Tu sabendo que não faz a mínima diferença para a segurança dele se os adesivos estão ali ou não, mas tu tendo que advertir ou multar essa pessoa. Eu nunca ia fazer isso. Eu iria mandar ele sumir da minha frente e ainda ia falar mal do formulador da lei, dos meus superiores que me instruíram a cumpri-la e dos meus colegas que a estivessem cumprindo. Pior, se algum jornalista me ouvisse falando isso iria publicar numa matéria do tipo: "o próprio agente da lei fomenta o seu descumprimento". Eu ia ser expulso da corporação e o escambau. Eu nunca seria um bom soldado, eu nunca seria um bom militar porque eu tenho essa mania de pensar. Se a ordem fosse absurda ou contra meus princípios eu a repudiaria. Eu fico pensando nos caras que vigiavam os campos de extermínio da Alemanha Nazista, eles estavam cumprindo ordens. A pergunta que fica é: Eles eram/são culpados pelos seus atos? A resposta não é tão simples como pode parecer...


segunda-feira, 7 de abril de 2008

Hipocrisia e Egoísmo

Eis dois sentimentos que, como dizem os americanos, "rule"! Estão acontecendo os preparativos, as festas e as movimentações para as próximas olimpíadas na República Popular da China e muita gente está festejando. Os brasileiros estão ansiosos na expectativa de nossos atletas baterem recordes de medalhas conquistadas, nossos jornais (escritos e falados) dedicam espaço para notícias olímpicas, há uma grande euforia. É claro que dedica-se espaço para mostrar-se os protestos e as manifestações anti-governamentais naquele país e no mundo, mas não se discute muito além disso. Estranho...

Todo mundo sabe o que acontece naquele país asiático, a falta de direitos individuais dos cidadãos, a exploração da mão de obra, a invasão e o domíno do Tibet etc. Todo mundo repudia o que por lá acontece, no mínimo lamenta, mas... Mas todo mundo está muito feliz excitado e contente com a oportunidade de participar, cobrir e assistir os jogos olímpicos! Todos! Eu sempre ouvi meus pais falando das "más companhias". Acho que todo mundo já ouviu e já repetiu essa frase: "Diga-me com quem andas e te direi quem és". Ela quer dizer: "Olha, não adianta tu ser um bom menino, se a polícia te pega andando com o João Ladrão ela vai te levar junto etc e tal". Engraçado...

Eu não consigo deixar de perguntar o porquê disso tudo e eu não consigo deixar de responder também. As pessoas fazem de conta que não sabem que o Governo Chinês faz o que faz porque elas são hipócritas e egoístas! Todas elas vão ganhar alguma coisa com essa Olimpíada, pelo menos os atletas e os meios de comunicação. Todas elas até o Zé Povinho que apenas ficará lá torcendo pelo Brasil-sil-sil. Esse último vai ganhar menos, é claro, o Zé Povinho sempre ganha menos, vai ganhar alguns momentos de euforia, vai se achar orgulhoso de ser Brasileiro por alguns instantes ou dias e vai se sentir bem. Alguém inclusive vai falar que a única alegria dos brasileiros é o esporte e blá blá blá.

Acho que não precisaria falar aqui que tem muito dinheiro envolvido nisso tudo, imagino que os direitos de transmissão já foram comprados e os espaços comerciais já foram ou estão sendo vendidos. Quanto aos atletas, alguém vai dizer: "Puxa, a Olimpíada é de quatro em quatro anos, pedir que os atletas deixem de participar é exigir demais deles, coitados, eles apenas competem e não decidem nada." Pois eu digo que essa afirmação apenas reforça a idéia de que o Esporte pode ser alienante. Isso vai contra a mensagem que tentam nos passar há anos que o Esporte vai salvar o Brasil, que tira as crianças da rua e as transforma em cidadãs. Bueno, um bom cidadão deve pensar e escolher, estamos na contra-mão aqui já que ninguém está pensando muito. Não sou atleta, mas se fosse eu seria conta as Olimpíadas na China, eu não iria. Se todos fizessem isso, talvez os organizadores repensassem seus critérios na hora de escolher a sede dos próximos jogos.

Claro, alguém vai dizer que essa é uma boa tentativa para "abrir" e mudar aquele país. Mas eu não deixo de estranhar a diferença de tática que os países ricos e poderosos usam para "ajudar" os povos de diferentes lugares. Em alguns eles aplicam o embargo e simplesmente ignoram a existência do país e do seu governo. É claro que esses são os países pobres e que não oferecem bons alvos para investimentos e não são grande consumidores. Acontece que existe muito dinheiro lá na China, para todo mundo, existem muitos consumidores e o investimento lá é garantido. Então... Então a gente faz de conta que está tudo bem. Até os Paladinos da Justiça, os Estados Unidos da América, até eles que levam a "liberdade" a todos os recantos do mundo, os bonzinhos, até eles não dão muita bola. A China não é democrática? Tudo bem! As long as they have money for us!

E você querido leitor? Vai assistir ao jogos? Vai entrar nessa? Eu sei que eu não vou...