quinta-feira, 21 de junho de 2007

Versões (ou não História)

O mundo é feito de histórias, mas principalmente o mundo é feito de versões, de histórias mal contadas, de não história. Falo das histórias comuns, do cotidiano de cada pessoa, uma coisa menor. Fico pensando, porém, que na História com "agá" maiúsculo as coisas possam ser assim também.

As pessoas gostam de histórias que contam vitórias. Ninguém conta uma história de derrota a menos que essa derrota venha seguida de uma vitória posterior. A vitória posterior sim, valoriza a derrota prévia, então tem um papel definido não como derrota pura, mas como um aprendizado, fortalecimento, algo que o valha. A história de derrota pura enfraquece, mostra fragilidades, decepções e é por isso também que os finais na ficção (cinemas, novelas e livros (esses talvez menos)) costumam ser felizes. As pessoas gostam de histórias de vitórias e de felicidade.

Fui ver a final da Libertadores ontem. Saí de Brasília, na verdade saímos oitenta pessoas. Saímos às onze da manhã e estávamos animados, acreditávamos. Muitos depois iriam dizer que não acreditavam muito e está aí aquela distorção da história a que havia me referido. A afirmação posterior de que já se sabia serve como um escudo, como um minimizador da derrota, que fica menor se as pessoas já sabiam de antemão que iam ser derrotadas. Algo do tipo, eu já sabia que ia perder mesmo, logo a derrota não me abala. Uma versão...

Aconteceram mais coisas nessa viagem. Junto com a "delegação" havia um repórter (fotógrafo) de um jornal gaúcho. Ele tirou várias fotos. Houvesse o Grêmio vencido e essa história seria contada, aposto. Até agora não foi. Por quê? Porque essa não é uma história de vitória. Seria uma história de oitenta pessoas que saíram às onze da manhã de quarta-feira, chegaram a um estádio por volta das seis da tarde, assistiram a um jogo em que seu time foi derrotado, voltaram para um aeroporto e esperaram até as seis horas da manhã de quinta-feira, sem banho, pagaram caro para comer mal, dormiram mal e voltaram para suas casas e vidas sem mais um título para comemorar. Ou seja, é uma história que precisa ser esquecida, ela conta uma derrota. Essa história só será contada de novo em caso de uma vitória posterior. Alguns dirão depois de uma vitória: "Naquela vez em que perdemos, estávamos lá também."

Existiam argentinos no aeroporto também, muitos tiveram que dormir por lá mesmo também. Ouvi dizer que o vôo deles ia de Porto Alegre à São Paulo, antes de ir para Buenos Aires. Eles passaram por privações parecidas, mas eles venceram, então essa história será contada, não dúvido. Será o "valeu a pena".

As duas histórias contam a mesma coisa, são belas e feias igualmente, mas uma será repetida, outra não. Acredito que geralmente podemos entender alguma coisa, qualquer coisa, analisando apenas um pedaço dela, algo parecido com uma biópsia subjetiva. A história que contei faz o papel desse pedaço, dessa amostra, a vida como um todo funciona mais ou menos assim, tenho certeza. Escolhemos as histórias que queremos contar, repetir e principalmente ouvir, além disso e mais do que isso, damos nossa versão particular dos fatos, a história é sempre uma versão.

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