segunda-feira, 23 de abril de 2007

300 do Iraque

Vi ontem o filme os 300 de Esparta. O filme, para variar, mostra a visão americana do mundo e cai como uma luva na atual briga americana: de um lado o ocidente (espartanos) com sua lógica, suas táticas e seu povo vigoroso e bravo (Ocidente não, estamos indo longe demais, o verdadeiro Ocidente, que são os EUA e só), de outro os "malditos iraquianos" e árabes em geral, quer dizer, os persas, ardilosos e jogando sujo, com magias e até seres mágicos ou não humanos, mas fracos e desorganizados. Vi o filme uma única vez, mas me impressionei com o número de vezes que a palavra que mais os americanos adoram e repetem: "freedom". Se você não viu, experimente contar, se vai ver de novo, conte. Eles adoram a freedom, é por isso que eles lutam e é por isso que eles estão sempre prontos a se levantar, mas me adianto.

Bueno, a mim o filme fez raciocinar no sentido contrário. Eu fiquei imaginando os iraquianos (árabes, onde tenha petróleo) como sendo os 300, fiz a analogia de um monte de árabes que não têm nada, vivendo uma vida espartana na síntese (privações, nenhum luxo, a melhor expectativa de vida sendo a morte como mártir e a redenção num "céu" recheado de virgens), tendo que lutar contra o poderoso e numeroso exército de Xerxes, com muitos homens, bem alimentados, bem equipados e com um líder querendo ser Deus na Terra. Não dá para pensar assim? Eu pensei.

Na verdade, a única analogia que pode ser feita entre Ocidente (com os EUA como seu baluarte) x Árabes "malditos" com os Espartanos x Persas é essa: uns ficam do lado de cá, outros do lado de lá. De resto é tudo ao contrário: atualmente os ocidentais é que invadem, os ocidentais que têm monstros couraçados, os ocidentais que cobrem o sol com flechas. Mas os 300, ah, esses continuam lá. O Osama (de quem não sou fan, diga-se de passagem) e alguns outros, se recusando a se ajoelhar diante do Rei dos Reis, do Deus que caminha entre os homens, nosso querido Bush e os outros por trás dele.

Os americanos (e simpatizantes) devem ter apenas ouvido os trocentos "fredom" e devem ter vibrado quando o Leônidas jogou os mensageiros no poço, tá certo, com árabe não dá mesmo para conversar, ainda mais se não nos vendem petróleo baratinho ou, mais absurdamente, não nos dão de presente. Eu ainda prefiro a "الحرية" (traduzi freedom para árabe no google, pode ser que esteja errado) dos árabes, porque a deles é a da fome, do atraso e da dominação religiosa.


2 comentários:

Anônimo disse...

Pois eu concordo ctg... Da pra pensar nos árabes como sendo os espartanos e os americanos como sendo os persas. Acho que na atual conjuntura, faz mais sentido pensar assim que o contrário... O exemplo dos espartanos é um classico pra qqr exercito... Já que o espartano é o soldado ideal, organizado, e totalmente obediente aos ideais (interesses dos comandantes)...
Acho que isso é mais interessante ao exercito que qqr abobrinha sobre liberdade... (nem sei pq to falando so exercito)

Anônimo disse...

Bom, não preciso dizer que tu escreveu exatamente o que eu penso. É interessante como um filme tão ruim pode ter tantas análises filosóficas: é um filme que consegue ser homofóbico e homoerótico ao mesmo tempo (coisas aliás que têm muito a ver, tá cheio de cara enrustido que enfatiza odiar a viadagem, mas na verdade tava louco pra queimar a rosca), é rascista, até nazista em certos aspectos etc.

Sobre a liberdade, é incrível como Hollywood distorce um conceito que surgiu um pouco antes da Revolução Francesa como se fosse algo que sempre existiu, muito antes pelo contrário. Na Idade Média não existia individualismo: heróico era o cara se sacrificar por sua aldeia, aliás, muito disso vemos no Rei Leônidas do filme. Na Antigüidade então...

Este "freedom" virou um clichê irritante, que não consigo mais ouvir quando vejo um filme. E me irrita mais como ele é colocado fora de contexto. Fazia sentido o Mel Gibson de Coração Valente gritar "freedom", isto tinha a ver com o contexto da época. A impressão que tenho é que ainda estamos com aqueles resquícios do tempo da queda da URSS, quando os intelectuais da Casa Branca alardeavam o chamado "fim da história", resumindo: que o canal era o liberalismo, o resto não tinha sustentação.

É bem mais correto colocar Xerxes e seu império como George W. e seu também império. Xerxes fala "sou um deus bom eu dou tudo que me pedem", ou seja é a promessa do processo civilizatório da globalização em relação às ditas culturas mais atrasadas. Não sei se dá pra comparar os espartanos com o Irã, mas a barba do Leônidas me lembrou um pouco o Saddam quando foi pego dentro de um buraco, além da referência óbvia ao Fidel Castro. Daria para se por Hugo Chavez aí também, outro irredutível, um demagogo, ditador que recusa o desenvolvimento, mesmo que às custas da fome de seu povo. Além disso, Leônidas tem mais características de ditador ainda: atropela as instituições diplomáticas (joga o mensageiro no poço, chama de corruptos aqueles velhos decreptos do oráculo) e democráticas (também trata como corruptos os conselheiros) e conduz 300 súditos seus para um suicídio coletivo. Outra analogia que dá para se fazer é que Esparta estava muito mais para o modo de vida socialista/comunista, típico da Ilha de Fidel, do que um bastião da liberdade: os caras viviam com pouca roupa, pouca comida, sem luxo nenhum, aliás, luxo era coisa proibida. Não havia nenhum pudor em descartar as crianças deficientes, coisa muito parecida com o que acontece na China (esta quase) comunista.

Talvez o mais correto seja ver esse filme como alguns têm visto o Starship Troopers, uma forma de tratar o militarismo com ironia.

É isso aí, acho que fui um pouco extenso nos comentários, mas era uma coisa que estava me cutucando mesmo.

Abraço!