quarta-feira, 6 de maio de 2009

Meu cachorro é viralata!

A conversa é entre duas funcionárias da limpeza aqui da Universidade:

_ Meu cachorro (não sei lá o quê)... Ele é cruza de pastor alemão com (sei lá o quê)...

Já faz tempo que minha mulher alertou: "Ninguém mais tem cachorro viralata!" Todos os cachorros são, no mínimo, cruza disso com aquilo, desde que isso e aquilo sejam alguma raça. O meu cachorro (e meus dois gatos) não, eles são todos viralatas, cruza de nada com nada. Ao fazer tal afirmação eu percebo que meu índice de "chiqueza" caiu 80%, já que não tenho um "cachorro de marca". O fato do cachorro da faxineira (e de 99% dos brasileiros) ser de alguma raça é decorrência disso mesmo, da busca por status. É pelo mesmo motivo que o nome do filho de muita gente contém ou W ou Y ou duplo L ou N, pelo status que isso, aparentemente, confere.

Eu não sou contra ninguém querer ou efetivamente ter status. Sou contra o fato desse status ser baseado em ter, tal como se fosse um objeto, outro ser vivo. Algo como antigamente alguém ter 20 ou 30 escravos (guardadas as devidas proporções para aqueles que acham que somos tão melhores que os outros animais). Por que não comprar tal carro, tal moto ou tal roupinha? Por que um gato ou um cachorro? Certa vez eu vi que o índice de Dálmatas abandonados em tal país era altíssimo, sabe porquê? Por que, após o sucesso do filme "101 dálmatas", todos quiseram ter o cachorro sem ao menos saber a que tamanho chegava, como era a personalidade, nada. Então, se esqueceram do filme, os cães tinham que comer, faziam cocô e xixi, não eram bebês para sempre e foram descartados, como um objeto não mais querido, e viraram um problema para as autoridades.

Isso sem mencionar um problema anterior onde, provavelmente, várias cadelas tiveram que ficar parindo ininterruptamente para suprir a demanda por filhotes. Imagine uma fêmea, da raça humana, confinada em um recinto, sendo fertilizada sempre que possível, produzindo bebês para serem vendidos. Bonito né? Humano. É assim que a maioria dos canis agem: "produzem filhotes" em linha de montagem, exploram fêmeas, descartam (de maneira brutal) os que falham no controle de qualidade e depois descartam as fêmeas que não podem mais parir. Chique né? Como foi chique ter escravos.

Amigo se faz, não se compra!

6 comentários:

Unknown disse...

Cara, muito bem sacado o "cachorro de marca". Isso me lembra o Paulo Sant'Anna ter falado certa vez que na periferia de Pelotas (sim, Pelotas!) o pobrerio tinha mania de comprar Pit Bull e depois acabava sem dinheiro para dar vacinas e mesmo comida.
Bom, tu imagina que se o cara mora num barraco que nem cerca tem, colocar um Pit Bull que cedo ou tarde vai arrancar a perna de uma criança deve ser uma ótima idéia.
Além disso, ao contrário dos Vira-Latas, que possuem uma carga genética variada, que garante uma resistência maior às doenças que seus semelhantes valentões, os Pit Bulls são cachorros extremamente frágeis do ponto de vista imunológico (pelo menos os que eu conheci, estou falando isso da observação empírica, a Piti, que é veterinária pode corrigir se estou falando uma ignorância).
Logo, pagar por um cachorro de raça me parece um péssimo negócio.
Outra coisa que a Rose me fala que acontece seguido na Santa Terezinha, onde mora a mãe dela é que se alguém tem um bicho bem cuidado e bonito, logo aparece um pobre que rouba o bicho e leva pra casa. Claro que passam algumas semanas e o bicho já está feio de novo...
Espero não parecer preconceituoso quando falo em "pobre", acho que isso também se aplica às madames e tal. É muita ignorância à solta por aí...

Mel disse...

Ótima comparação com "ser dono de escravos", é status, então tá valendo.

SANDRA FERREIRA disse...

Adoro suas vira-latas e concordo com o que você disse!!

Imagina se eu tivesse colocado o nome da Bridinha de Bryda Wylboor!!! Hehehehe

Chique no úrtimo!

Beijos para vocês cinco!

Marcelo Machado disse...

É difícil, para mim, na maioria dos assuntos, chegar a uma conclusão diferente desta: tudo só pode ser resolvido com educação. Nesse sentido eu acredito que o trabalho feito por certas organizações não governamentais é fundamental. O povo em geral, infelizmente, funciona como papagaio e apenas repete o que houve, sem se aprofundar muito. Por muito tempo as pessoas ouviram e repetiram que cachorro bom é cachorro de raça. Agora alguém tem que começar a falar o contrário, repetida e enfaticamente, para "uma nova verdade" acontecer.

Samuel Ritter disse...

Concordo que tem muito retardado que não liga para os animais. Muita criança que gosta de ter muitos animais, só pra contar para os amiguinhos e torar onda e tal... Mas esse negócio de botar cadela pra parir em linha de produção... Vc tem certeza que é assim? Normalmente essas cadelas possuem até identidade, assim como o macho que a fecundará. Elas não são descartadas assim. Mas admito que sinto ódio que pessoas que abandonam cachorros e gatos a própria sorte. Isso é desumano.

Marcelo Machado disse...

Infelizmente sim Samuel, acredito que existam canis onde os animais devam ser mais bem tratados, mas a prática geral é essa, com ou sem identidade as fêmeas estão ali para parir. Se você procurar verá que existe até uma chamada "mesinha de estupro" onde as cadelas são presas de forma a "aceitarem" os machos que os proprietários desejam. Lembra que a idéia aqui é lucrar e onde entra o lucro é complicado entrar outras coisas como ética, bom senso e sensibilidade.

abraços