terça-feira, 24 de julho de 2007

Só o esporte salva!

Acho que esse muito bem poderia ser o slogan de algumas emissoras de televisão nacionais, é ou não é? Em programas esportivos, em vinhetas, em reportagens especiais sempre vem alguém me informar que a melhor maneira de salvar uma pobre criança de uma favela é enconrajá-la a fazer algum esporte. Próxima cena, aparece um adolescente dizendo que antes de o Professor Fulano abrir ali sua escolinha de _ _ _ _ _ _ (preencha com seu esporte favorito) ele passava o dia na rua, fazendo nada e inclusive tinha amigos que haviam sido "convocados" pelas Forças Armadas do Tráfico e que ele tinha medo de que acontecesse o mesmo com ele. Corta, vem um atleta consagrado afirmar que o esporte salvou a vida dele, que ele não teria condições de ser e ter o que ele é e tem hoje se não fosse o esporte. Volta o apresentador e faz algum comentário enfatizando que o esporte é a salvação nacional. Lindo!

Antes de comentar a refutar essa idéia simplista eu gostaria de comentar que não tenho nada contra o esporte, quer dizer, não tenho nada contra alguns esportes e até gosto de alguns. Nada de errado com quem gosta dos que não gosto e odeio os que gosto, vivam as individualidades. Dito isso vamos nos aprofundar um pouco mais naquele roteiro que transcrevi ali em cima e que a maioria deve ter assistido ao menos uma vez, já que é uma reportagem padrão. Vamos pois:

1 - A pobre criança da favela: Em primeiro lugar ninguém tenta evitá-la previamente, digo, evitar que ela nasça. Calma, não quero acabar com todas as crianças da favela, mas gostaria de ver algum planejamento familiar ser pensando e amplamente apoiado pela mídia nacional, gostaria muito. Porém, planejamento familiar pode ser um tiro no pé para quem tenta vender coisas na televisão. Nunca vi, nunca, nenhuma emissora fazer uma campanha desse tipo, informativa, conscientizadora, algo dizendo: Você pensou bem se é a hora certa de ter um filho? Você terá condições de sustentar e educar mais de um filho? Não quero nada drástico, não quero aprovação do aborto, quero um personagem de novela pobre e real, com cinco, seis filhos, trabalhando o dia inteiro, deixando a menina de nove anos tomando conta dos irmãos menores, perdendo sua infância, não podendo ir a escola e virando prostituta aos quatorze, quero ver a mãe sofrendo, o pai bêbado e desempregado batendo em todo mundo, ou então trabalhador, mas triste, sabendo que seus filhos nunca terão uma vida melhor do que a que ele teve. Quero isso!

2 - A criança que passa o dia inteiro fazendo nada e na rua: Então tá, meus pais decidiram ter um filho, mas precisam trabalhar o dia inteiro, eu fico sem ter o que fazer, me torno chefe da minha vida aos doze anos de idade e resolvo passar o dia inteiro na rua pois não tenho nada para fazer, vem o esporte e me livra do ócio, agora passo o dia chutando uma bola ou treinando golpes de uma luta oriental. Bravo! Bem, acho que o esporte não é exatamente a única forma de ocupar uma criança/adolescente. Por que não criar uma biblioteca por ali, um clube de xadrez, cinema ou de ciência? É verdade, volta e meia aparecem nas tvs alguma coisa do tipo, mas eu estou falando a respeito da ênfase e constância. Gostaria que houvesse um programa do tipo: "Emissora Leitura" ou "Leitura Espetacular" ou "Show da Leitura". Algo bem feito, em horário acessível, algo que se predispusesse a não lucrar muito logo de cara, já que as televisões são concessões governamentais e devem desempenhar um trabalho social. Isso não acontece por aqui onde os falsos humanitários predominam.

3 - O atleta consagrado que vem comentar a respeito de seu sucesso pessoal: Esse parece se esquecer de que nem todos serão muito bons ou bons no esporte, tem gente que não leva jeito. Não importa o quanto treine, não importa o quanto se dedique. Dessa forma, pode ser um erro um menino ou menina passar seis horas por dia em uma academia ou quadra se ela nunca poderá viver disso. Ao que me consta sempre que assisto a entrevista de um vencedor é que é difícil sobreviver, mesmo para os muito bons. Assim sendo, será que não é vantagem para alguém que não tem talento passar seis horas aprendendo a ler e escrever? A fazer contas? A entender como funcionam as coisas e o mundo? A saber história? Ciências? O máximo que um mal atleta vai conseguir passando seis horas em uma academia é tornar-se disciplinado e ser um grande funcionário em um emprego simples, fazendo força, dando duro e sendo mais bom soldado do capitalismo.

Isso tudo é desanimador, mesmo assim há gente que entende que para um país ser grande e reconhecido ele deve ter grandes atletas. Essa é a imagem que a História nos ensina, Hitler com sua supremacia da raça ariana queria vencer nos esportes, a grande briga União Soviética versus Estados Unidos durante a Guerra Fria, com os Chineses e Cubanos fazendo parte disso. Monte uma equipe esportiva vencedora, monte um exército e domine o mundo, você terá mais chances se tiver o cinema ao seu lado também, como provaram os EUA.

Não sou vidente, mas eu já sei o que vai acontecer, o Brasil vai confirmar uma boa performance nesses jogos (atualmente estamos na terceira colocação), o Comitê Olímpico vai dizer que tudo foi um sucesso, o Governo Nacional e Carioca vão tirar casquinhas. O super faturamento das obras será esquecido. Os atletas vão reclamar da falta de condições e patrocínio. Muitos comentaristas irão plocamar que o Brasil tem jeito, que o brasileiro é o melhor povo do mundo, que a culpa de tudo é dos políticos que não são brasileiros nem escolhidos por esse maravilhoso povo. As reportagens irão se esgotar. Algum escândalo político será descoberto. Ficaremos esperando pela Copa ou Olímpiadas. No domingo algum programa sobre esporte irá mostrar como o esporte está mudando a vida de uma comunidade pobre em alguma favela do Brasil.


3 comentários:

Anônimo disse...

Bom, eu acho que a questão da valorização do esporte na formação do cidadão é pq esse é o mais fácil de fazer. Em todos os sentidos, intelectualmente tb.
Basta alguem que sirva como técnico e deu pra bola. Aprender os conceitos fundamentais de um esporte é relativamente fácil, pois é um universo muito limitado. Há um conjunto de regras, um conjunto de estratégias e pronto. Não tem muito erro, pois não há nm margem pra errar.
Isso parece muito com a ideia de toda celebridade instantanea brasileira querer fazer um "trabalho voltado para as crianças". Seja cantora, apresentadora, whatever. Pq crianças? Pq as crianças sao burras, elas nao sabem nada de nada, nao tem o menor dissernimento das coisas. Entao a celebridade pensa: vou fazer algo pra eles, pois jamais notarão que sou uma fraude sem talento.
Acho que isso vale pro esporte, pq as pessoas em geral nao saberiam nem como começar a formar outro tipo de cidadão, mas qqr pode opinar em como se forma um atleta. Uma bola e algumas orientaçoes e tu já tens um jogador de futebol. Agora formar um doutor (aquele que tem doutorado) leva 20, 25 anos (as vezes mais).
Talvez a ideia de salvar pelo esporte seja importada daqui da America, onde os bons atletas conseguem bolsa de estudo. Entao muita gente paga a faculdade jogando pela universidade. Os muito bons nem precisam se formar, pois vao pras ligas e ficam milionários, mas esses sao poucos (um em 32.000 parece), a grande maioria usa isso pra se formar mesmo.
Ainda acho que esse lance dos esportes tem algum valor, pois está se falando de crianças sem absolutamente nada, nenhuma instruçao. Pelo menos o treco da alguma disciplina pro sujeito.

Anônimo disse...

Alô, Marcelo!

Tchê, eu vejo nessa idéia de acreditar no esporte como "salvador" das pessoas sem perspectiva mais um sintoma do que uma causa pra alguma coisa. O Brasil é o país do remendo, tudo aqui é meio remendado, nada é feito do zero com um plano bem definido e metas a serem cumpridas. Existem crianças pobres, sem acesso a escola ou cultura? Bem, algo tem que ser feito, e em vez de criar um plano de estruturação educacional completo - que levaria umas boas décadas para ser efetivamente implantado - vamos "absorvê-las" em alguma coisa mais rápida - neste caso, o esporte, afinal é mais fácil cimentar um pátio e colocar um par de goleiras do fundar uma escola e formar professortes.

Agora, é necessário sim que se continue com os centros esportivos atraindo crianças. Esporte de alto nível não é para qualquer um, é possível aprender as regras de qualquer esporte, mas praticá-lo não é simples, todos nós que não somos atletas temos experiência nisso. E eu acho impressionante sim ver os caras nadando 10 km no mar agitado sem sofrerem um ataque cardíaco ou um jogo de futebol bem jogado, com os times se estudando e criando alternativas. E, por isso, acho sim que toda criança deva ter contato com as práticas esportivas para ela decidir se ela pode e, mais do que tudo, se quer ser atleta.

O furo da questão é que não há alternativa para quem não pode/não quer ser atleta. A criança de casa desestruturada e escola cheia de bandidos não tem outro caminho. Se não quiser virar bandido, vai tentar jogar bola, mesmo que, no fundo, ela desejasse e tivesse talento nato para as ciências, por exemplo. Isso é que é brabo!

Sobre o orgulho de ser brasileiro, bem, as pessoas tem que ter orgulho de alguma coisa. Eu não me sinto pessoalmente orgulhoso porque o cara que eu nunca ouvi falar ganhou um ouro, mas ora bolas, me orgulho de tantas outras coisas que não interessam a ninguém! Dia desses me orgulhei da minha atuação e de ter conseguido uma "virada" em um jogo de futebol quase perdido... O Brasil não é governado pelo povo, e eu duvido muito que algumas medalhas façam as pessoas se convencerem que precisamos de mais campos de futebol e menos escolas. Orgulho é que nem sovaco, cada um com o seu. Grande abraço!

Marcelo Machado disse...

Vocês dois acabaram falando o mesmo que eu penso sobre o esquema do "mais fácil de fazer" e do "remendo", isso é uma coisa que gostaria de ter dito, mas que não ficou muito clara.

Eu concordo com vocês ainda em relação da importância de incentivo ao esporte, realmente não sou contra isso, só entendo que às vezes nos é passada a idéia de que essa é a única opção viável, quando na verdade não é.

Além disso, é verdade que a curto prazo é mais fácil uma criança ir jogar bola ou lutar judô, mas acontece que não dá para ficar sempre pensando a curto prazo, essa é uma saída simplista e o atual modelo social. Foi mais ou menos isso que quis dizer.

Para finalizar, bom, agradeço aos comentários e vivam as opiniões contrárias. Na verdade o blog foi feito para isso também...

abraços